Modelo de Anamnese Psicológica: roteiro, o que perguntar e o que diz o CFP

Não existe um formulário oficial de anamnese, mas há uma estrutura clínica consolidada e obrigações de registro que ela precisa atender. Veja um roteiro adaptável e as fontes do CFP e da literatura brasileira.

O que é a anamnese psicológica — e o que ela não é

A anamnese psicológica é a entrevista inicial pela qual o psicólogo conhece a pessoa atendida: a queixa que a trouxe, sua história de vida, o contexto do problema e os objetivos do trabalho. Ela é a base sobre a qual se constroem a hipótese, o plano terapêutico e — quando é o caso — o processo de avaliação psicológica.

Dois esclarecimentos importantes de saída:

Não procure um "modelo carimbado pelo CFP": ele não existe. Procure uma estrutura que cubra o que a norma exige registrar e que faça sentido para o seu setting.

O que a norma diz sobre a anamnese

Três referências ancoram o uso da anamnese na prática regulada:

Em 2025 o CFP publicou o Manual Orientativo de Registro e Elaboração de Documentos Psicológicos, que consolida essas resoluções com exemplos e reflexões — leitura recomendada para alinhar sua anamnese ao registro exigido.

Regra prática: o formato da anamnese é livre; o que ela precisa produzir — demanda e objetivos registrados — não é.

Modelo de anamnese psicológica: roteiro adaptável

A estrutura abaixo vem da tradição clínica da entrevista psicológica (sistematizada em obras de referência brasileiras, como o Psicodiagnóstico de Cunha). É um roteiro, não um questionário rígido: adapte a profundidade ao seu setting (psicoterapia, avaliação psicológica, contexto institucional) e ao vínculo — nem tudo se investiga na primeira sessão.

BlocoO que investigar
IdentificaçãoNome, idade, escolaridade, ocupação, com quem mora, quem encaminhou.
Queixa e demandaMotivo da procura nas palavras da pessoa; o que espera do atendimento; quem definiu a demanda (a própria pessoa, familiar, escola, justiça).
História do problema atualInício, evolução, frequência e intensidade; fatores que melhoram ou pioram; impacto na vida (trabalho, estudo, relações); tentativas anteriores de resolução.
História de vida e desenvolvimentoMarcos relevantes de desenvolvimento, eventos significativos, perdas, mudanças. Em muitos roteiros a história desenvolvimental recebe peso maior.
História familiarComposição e dinâmica familiar; relações significativas; história de saúde mental na família, quando pertinente ao caso.
Escolar / profissionalTrajetória escolar e de trabalho; desempenho, dificuldades, satisfação.
Vida social e afetivaRede de apoio, amizades, relacionamentos, sexualidade quando pertinente e consentido.
História de saúdeCondições clínicas, medicações em uso, uso de álcool e outras substâncias, sono, alimentação, atividade física.
Atendimentos anterioresPsicoterapia, psiquiatria, internações, avaliações prévias; o que funcionou ou não.
Observação na entrevistaApresentação, contato, afeto, discurso, engajamento — o que se observa, não se interpreta ainda.
Objetivos e encaminhamento inicialObjetivos acordados do trabalho; combinações (frequência, sigilo, honorários); encaminhamentos, se houver.

Os dois últimos blocos conectam a anamnese ao registro obrigatório: a observação alimenta a evolução (Art. 2º, III da CFP 001/2009) e os objetivos cumprem o Art. 2º, II. Se você já usa prontuário, veja também nosso guia de modelo de prontuário e evolução em psicologia.

Roteiro de anamnese para copiar e adaptar

Um roteiro que você pode colar e adaptar — a profundidade se ajusta ao setting e ao vínculo, sem esgotar tudo na primeira sessão:

IDENTIFICAÇÃO: nome · idade · escolaridade · ocupação · com quem mora · encaminhamento
QUEIXA / DEMANDA: motivo (nas palavras da pessoa) · expectativas · quem definiu a demanda
PROBLEMA ATUAL: início · evolução · frequência/intensidade · fatores +/− · impacto · tentativas
HISTÓRIA DE VIDA / DESENVOLVIMENTO: marcos · eventos significativos · perdas
HISTÓRIA FAMILIAR: composição · dinâmica · saúde mental na família (se pertinente)
ESCOLAR / PROFISSIONAL: trajetória · desempenho · dificuldades
VIDA SOCIAL E AFETIVA: rede de apoio · relacionamentos
HISTÓRIA DE SAÚDE: condições clínicas · medicações · álcool/substâncias · sono · alimentação
ATENDIMENTOS ANTERIORES: psicoterapia/psiquiatria · o que funcionou
OBSERVAÇÃO NA ENTREVISTA: apresentação · afeto · discurso · engajamento
OBJETIVOS E ENCAMINHAMENTO: objetivos acordados · combinações · encaminhamentos

Anamnese psicológica infantil: o que muda

Na avaliação e no atendimento de crianças, a anamnese é feita principalmente com os responsáveis (idealmente ouvindo mais de uma fonte) e acrescenta blocos específicos:

Aqui vale um cuidado ético e de LGPD extra: o consentimento e o acesso às informações envolvem os responsáveis legais, e a criança tem direito a ser ouvida conforme sua idade.

Sigilo, LGPD e o que registrar

A anamnese reúne dados particularmente sensíveis (história familiar, saúde, sexualidade). Três balizas:

Erros comuns na anamnese

Perguntas frequentes

Existe um modelo de anamnese psicológica oficial do CFP?

Não. O CFP reconhece a anamnese como fonte fundamental de informação (Resolução 31/2022) e obriga a documentar demanda e objetivos (Resolução 001/2009), mas não impõe um formulário único. A estrutura vem da tradição clínica e é adaptável.

Anamnese e entrevista inicial são a mesma coisa?

Na prática, os termos costumam se sobrepor: a anamnese é o levantamento sistemático de história feito na(s) entrevista(s) inicial(is). O foco da anamnese é a coleta de história; a entrevista é o método.

Preciso seguir todos os blocos do roteiro na primeira sessão?

Não. O roteiro é referência de cobertura, não um checklist a esgotar de uma vez. A profundidade se ajusta ao vínculo, ao setting e aos objetivos.

A anamnese entra no prontuário?

Sim, na medida do necessário. O que sustenta o acompanhamento (demanda, objetivos, dados clínicos relevantes) integra o registro documental; relatos íntimos são registrados de forma sucinta, sob sigilo.


Se você quer uma anamnese que já nasce estruturada e conectada ao prontuário — com campos de demanda e objetivos, guarda segura de dados sensíveis e evolução por sessão — conheça o prontuário eletrônico para psicólogos do CliniqMais e os planos disponíveis. A arquitetura foi desenhada para reduzir o tempo de documentação; não há ainda estudo formal medindo o ganho.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 3 de julho de 2026. As normativas citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais do CFP e a legislação vigente. Este texto tem caráter informativo e não substitui assessoria jurídica, formação específica em avaliação psicológica nem a orientação do seu Conselho Regional de Psicologia.

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