Quais escalas aplicar na primeira consulta psiquiátrica

Um kit de base de 5 minutos, gatilhos claros para escalas dirigidas e o erro de transformar a primeira consulta num questionário. Guia prático com a lógica de decisão, não uma lista.

Resposta direta

Para a maioria das primeiras consultas de adultos em saúde mental, um kit de base curto resolve: PHQ-9 + GAD-7 (juntos, menos de 5 minutos, autoaplicados antes da consulta) e AUDIT como rastreio de rotina de álcool. A partir daí, escalas dirigidas entram por gatilho clínico: MDQ sempre que houver quadro depressivo (antes de tratá-lo como unipolar), ASRS para queixa atencional, PCL-5 quando há evento traumático relevante, SPIN quando a entrevista sugere evitação social, GDS-15 no lugar do PHQ-9 em pacientes com 60 anos ou mais. Escala nenhuma substitui anamnese e exame do estado mental — elas estruturam e documentam, não decidem.

O kit de base (todo adulto, toda primeira consulta)

EscalaO que cobreTempoGancho de decisão
PHQ-9Sintomas depressivos (2 semanas)2–3 min≥10 = investigar episódio depressivo; item 9 >0 = avaliar risco na hora
GAD-7Carga ansiosa (2 semanas)~2 min≥10 = investigar transtorno de ansiedade (qual deles é clínica)
AUDITUso de álcool (último ano)~3 min≥8 = zona de risco; cada zona já sugere conduta

Por que esses três como rotina? Porque depressão, ansiedade e álcool são os fios que atravessam quase todo quadro em saúde mental — e porque os três são autoaplicados, gratuitos e curtos o bastante para o paciente responder na sala de espera ou pelo portal, antes de entrar.

As escalas dirigidas (entram por gatilho, não por rotina)

Gatilho clínicoEscalaPor quê
Qualquer quadro depressivo presenteMDQRastrear mania/hipomania pregressa ANTES de tratar como unipolar — o erro de conduta mais caro da psiquiatria ambulatorial
Queixa atencional, desorganização, "sempre fui assim"ASRS-v1.1Rastreio de TDAH adulto pela regra da faixa sombreada (não pela soma)
Evento traumático relevante na históriaPCL-5Rastreio de TEPT ancorado no evento (≥31–33)
Evitação social estruturada na entrevistaSPINFobia social raramente é relatada espontaneamente; corte ≥19
Paciente com 60+ anosGDS-15Substitui o PHQ-9 no idoso — desenhada para evitar a confusão com sintomas somáticos do envelhecimento
Suspeita de TEA no adultoRAADS-R (+ CAT-Q)Triagem com leitura crítica dos falsos positivos/negativos — geralmente em consulta dedicada, não na primeira

O erro a evitar: a consulta-questionário

A tentação de aplicar tudo "para não perder nada" tem dois custos: o tempo clínico da primeira consulta — que é onde o vínculo nasce — e a qualidade das respostas (fadiga de questionário degrada dado). A regra prática que funciona:

Escala boa é a que muda conduta ou documenta trajetória. Se o resultado não vai alterar nem o plano nem o registro, a aplicação era ritual, não clínica.

E depois da primeira consulta?

O valor composto das escalas está na reaplicação: PHQ-9/GAD-7 seriados viram a curva de resposta ao tratamento (a lógica do cuidado baseado em medidas). Defina já na primeira consulta o intervalo de reaplicação — e deixe o sistema lembrar por você. No CliniqMais, o paciente responde pelo portal e cada resultado entra no gráfico longitudinal automaticamente (PHQ-9, GAD-7 e ASRS inclusos no plano gratuito; as demais nos planos pagos).

Para a condução da consulta em si, veja também: Primeira consulta em psiquiatria adulta — 10 passos.

Perguntas frequentes

Aplicar escala na primeira consulta não "engessa" a anamnese?

Aplicada ANTES da consulta, faz o contrário: libera o tempo clínico para a conversa, porque o rastreio estruturado já aconteceu. O engessamento vem de aplicar durante, tomando o lugar da escuta.

Preciso aplicar MDQ mesmo se o paciente só relata ansiedade?

O gatilho do MDQ é quadro depressivo presente (atual ou recorrente). Sem depressão na apresentação, ele sai do kit — entra se a história trouxer episódios de humor.

Quanto tempo isso tudo adiciona à consulta?

Com o kit de base respondido antes, perto de zero — a leitura dos escores leva segundos. O tempo real vai para os itens positivos, que é onde ele deveria estar.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 9 de agosto de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Este texto não substitui avaliação clínica individualizada; escalas de rastreio não fazem diagnóstico.

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