ASRS-v1.1: como aplicar e interpretar o rastreio de TDAH no adulto
A escala da OMS para TDAH adulto tem uma pegadinha que quase todo mundo erra: o rastreio não é pela soma total, e sim pela regra da faixa sombreada nos 6 itens da Parte A. Guia prático completo.
O que é o ASRS-v1.1, em uma resposta direta
O ASRS-v1.1 (Adult ADHD Self-Report Scale) é a escala de autorrelato da Organização Mundial da Saúde para rastrear TDAH em adultos, desenvolvida com base nos critérios do DSM-IV (Kessler et al., 2005). São 18 itens de frequência — Parte A com os 6 itens mais preditivos (o "screener") e Parte B com 12 itens complementares. A adaptação transcultural para o português brasileiro é de Mattos et al. (2006). É gratuita e leva cerca de 5 minutos.
Ficha técnica
Característica
ASRS-v1.1
Itens
18 (Parte A: 6 · Parte B: 12)
Escala de resposta
Nunca · Raramente · Às vezes · Frequentemente · Muito frequentemente
Janela temporal
Últimos 6 meses
Aplicação
Autoaplicada (~5 minutos)
Rastreio
Regra da faixa sombreada na Parte A (≥ 4 de 6 itens)
Custo
Uso livre (instrumento da OMS)
Original
Kessler et al. (2005), Psychological Medicine
Adaptação brasileira
Mattos et al. (2006), Rev. Psiquiatria Clínica
A regra que quase todo mundo erra: a faixa sombreada
Diferente do PHQ-9 e do GAD-7, o rastreio do ASRS não é feito somando pontos. No formulário oficial, cada um dos 6 itens da Parte A tem uma faixa de respostas sombreada — e o limiar muda de item para item: em alguns, "às vezes" já conta como positivo; em outros, só a partir de "frequentemente". Isso não é estética do formulário, é resultado da análise de quais frequências realmente discriminam TDAH em cada pergunta.
A regra oficial de rastreio: 4 ou mais respostas na faixa sombreada, dentro dos 6 itens da Parte A, indicam sintomas altamente consistentes com TDAH no adulto — e justificam investigação clínica completa.
Somar os 18 itens e comparar com um "corte" total é o erro mais comum com o ASRS: a pontuação total (0–72) serve como referência de intensidade de sintomas, mas não tem ponto de corte diagnóstico validado.
Como aplicar no consultório
Quando aplicar: queixas de desatenção, desorganização, procrastinação crônica, "sempre fui assim" — ou rastreio em pacientes com depressão/ansiedade resistentes em que o TDAH de base passa despercebido.
Como: autoaplicada, sem ajuda para "interpretar" as perguntas. O paciente responde pensando nos últimos 6 meses.
Depois do resultado: Parte A positiva não fecha diagnóstico — abre a investigação: início dos sintomas na infância, prejuízo em dois ou mais contextos, exclusão de diferenciais (ansiedade, depressão, uso de substâncias, apneia, hipotireoidismo).
Rastreio negativo — não exclui TDAH; se houver prejuízo funcional relevante, avaliar clinicamente mesmo assim
Pontos que mudam a conduta na vida real:
O ASRS não diferencia TDAH de outras causas de desatenção. Ansiedade, depressão, insônia e uso de substâncias inflam o escore. O instrumento rastreia sintomas, não etiologia.
O diagnóstico de TDAH no adulto exige história. Sintomas com início na infância e prejuízo em múltiplos contextos são critérios — nenhuma escala autoaplicada verifica isso sozinha.
Reaplicar ao longo do tratamento ajuda a documentar resposta (a carga de sintomas da soma 0–72 serve bem para essa comparação intraindividual, ainda que não sirva como corte diagnóstico).
Na prática do consultório
Aplicar, pontuar a regra da faixa sombreada à mão e transcrever para o prontuário é exatamente o tipo de fricção que faz a escala cair em desuso. No CliniqMais, o ASRS-v1.1 já vem com a regra da Parte A implementada — o sistema conta os itens na faixa sombreada, classifica o rastreio e guarda a série no gráfico longitudinal do paciente. O ASRS está incluído no plano gratuito, e a triagem faz parte da rotina de prontuário para psiquiatra.
Não. É rastreio: indica probabilidade aumentada e justifica avaliação clínica completa, com história de infância, prejuízo funcional e diagnóstico diferencial.
Por que alguns itens contam com "às vezes" e outros só com "frequentemente"?
Porque a análise original identificou que a frequência que melhor discrimina TDAH varia por sintoma — é isso que a faixa sombreada codifica. Usar um limiar único para todos os itens distorce o instrumento.
Serve para crianças e adolescentes?
Não — o ASRS foi desenvolvido para adultos (18+). Para outras faixas etárias há instrumentos próprios (ex.: SNAP-IV, sob avaliação de profissional habituado à faixa etária).
Fontes consultadas
Kessler RC, Adler L, Ames M, Demler O, Faraone S, Hiripi E, et al. The World Health Organization Adult ADHD Self-Report Scale (ASRS): a short screening scale for use in the general population. Psychological Medicine. 2005;35(2):245-56.
Conteúdo revisado em 9 de agosto de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921, com atuação em TDAH do adulto). Este texto não substitui avaliação clínica individualizada; escalas de rastreio não fazem diagnóstico.