Primeira consulta pode ser por telemedicina? O que diz a CFM 2.314
Pode — a resolução permite estabelecer a relação médico-paciente por vídeo já na primeira consulta. A pergunta clínica é outra: quando isso é boa medicina em psiquiatria, e o que registrar.
Resposta direta
Sim. A Resolução CFM 2.314/2022 permite que a relação médico-paciente seja estabelecida de forma virtual já na primeira consulta, desde que cumpridas as condicionantes da norma (identificação, consentimento, segurança da transmissão, registro no prontuário) e as boas práticas. Duas balizas acompanham essa permissão: a consulta presencial permanece o padrão-ouro — o médico deve informar as limitações do atendimento a distância e pode exigir o presencial quando julgar necessário — e, em quadro crônico ou de longo acompanhamento, a norma exige presencial em intervalos não superiores a 180 dias.
O que a norma condiciona (o "sim, desde que")
Consentimento informado para a modalidade — o paciente sabe que é teleconsulta e aceita (modelo de termo aqui);
Identificação e registro: quem é o paciente, quem é o médico, início e fim do atendimento documentados no prontuário;
Infraestrutura adequada: transmissão segura e criptografada, guarda dos dados conforme a LGPD;
Informação sobre limitações: o que o exame a distância não alcança, dito ao paciente — e registrado;
Autonomia dos dois lados: o médico pode indicar o presencial a qualquer momento; o paciente pode recusar a modalidade.
A pergunta clínica: quando a primeira consulta por vídeo é boa psiquiatria?
Cenários em que costuma funcionar bem: queixas ansioso-depressivas estáveis, seguimento de quadros conhecidos, pacientes com barreira geográfica ou de mobilidade real, e situações em que a alternativa concreta seria não consultar.
Cenários que pedem presencial desde o início (ou muito cedo):
Suspeita de quadro psicótico ou alteração relevante do exame do estado mental — partes do EEM dependem de observação que o vídeo degrada (psicomotricidade fina, aparência global, sinais físicos);
Risco de suicídio não esclarecido — avaliação de risco pede o máximo de canal clínico disponível;
Necessidade de exame físico (diferenciais clínicos, efeitos motores de medicação);
Paciente sem privacidade real no ambiente (a consulta com alguém ouvindo atrás da porta não é consulta).
A norma responde "pode". A clínica responde "para este paciente, hoje, devo?" — e as duas respostas precisam estar registradas.
O que registrar na primeira teleconsulta (checklist)
Modalidade do atendimento e consentimento do paciente;
Início e fim da consulta;
Limitações informadas (e o plano para o presencial — inclusive o intervalo de 180 dias, se o acompanhamento for se estender);
Exame do estado mental com a ressalva da modalidade ("avaliado por videoconsulta");
Conduta e critérios que levariam a converter para presencial.
No CliniqMais, a videoconsulta nativa registra início/fim automaticamente e o consentimento fica documentado no prontuário — a parte burocrática do checklist sai do seu ombro.
Perguntas frequentes
Posso prescrever na primeira teleconsulta?
A teleconsulta válida é consulta — a prescrição segue seu critério clínico e as regras do documento (receita digital com assinatura qualificada; controlados têm regras próprias — guia aqui).
Preciso converter para presencial em algum prazo?
Em acompanhamento de quadro crônico, sim: presencial em intervalo não superior a 180 dias. Fora disso, vale o seu julgamento — que pode (e às vezes deve) antecipar o presencial.
E se o paciente só aceitar atendimento remoto?
A autonomia é dos dois: se você avalia que o caso exige presencial e o paciente recusa, documente a orientação e a recusa — e decida se é possível seguir com segurança. Atendimento que você julga inseguro não deixa de sê-lo porque o paciente prefere o cômodo.
Conteúdo revisado em 15 de agosto de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Este texto não substitui a leitura da norma nem o julgamento clínico caso a caso.
Se você está em sofrimento emocional ou pensando em suicídio, procure ajuda. O CVV atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188, por chat e por e-mail. Em emergência, procure um CAPS, uma UPA ou ligue 192 (SAMU).