Não existe painel obrigatório na primeira consulta psiquiátrica. O critério da APA é um só: o exame muda a decisão? Mais a linha de base que os protocolos brasileiros exigem antes de cada psicofármaco.
Não existe um "painel obrigatório" para a primeira consulta psiquiátrica. A diretriz da American Psychiatric Association para a avaliação psiquiátrica de adultos (3ª edição, 2016) é explícita: a decisão de pedir exames laboratoriais, imagem, eletrocardiograma ou eletroencefalograma "deve se basear na probabilidade de que o resultado do exame altere a decisão diagnóstica ou terapêutica". O texto vai além e afirma que os custos do exame "de rotina" — em dinheiro e em investigações desnecessárias por falso-positivo — dificilmente compensam o benefício de testar sem alvo.
Na prática brasileira isso se traduz em duas listas diferentes, que muita gente mistura: exames para investigar causa orgânica (só quando há sinal de alerta) e exames de linha de base antes de um psicofármaco específico (esses, sim, previstos em protocolo).
A diretriz de 2016 organiza a avaliação inicial em nove guidelines. A de avaliação da saúde física (Guideline VI) começa por algo que não custa nada e quase ninguém registra: verificar se a pessoa tem acompanhamento com um profissional de atenção primária. Se tem, e se fez avaliação clínica recente, o psiquiatra pode revisar história, exame físico e exames já feitos em vez de repetir tudo.
A mesma guideline lista o que avaliar na consulta: peso, altura e IMC, sinais vitais, pele (incluindo sinais de trauma, autolesão ou uso de drogas), status cardiopulmonar, doença endócrina passada ou atual, doença infecciosa (incluindo infecções sexualmente transmissíveis, HIV, tuberculose, hepatite C e infecções endêmicas locais), quadros neurológicos ou neurocognitivos e condições associadas a dor significativa. Repare: é uma lista de avaliação, não de requisição automática de exames.
A pergunta que ordena tudo não é "quais exames se pedem na primeira consulta?", e sim "o que eu faria de diferente com cada resultado possível?".
Aqui o gatilho é clínico, não protocolar. Vejo no consultório que a decisão fica muito mais fácil quando existe um sinal de alerta explícito: primeiro episódio em idade atípica, apresentação atípica para o quadro suspeito, sintomas neurológicos focais, declínio cognitivo, flutuação de nível de consciência, perda de peso não explicada, uso recente de substâncias ou de medicamentos com efeito neuropsiquiátrico conhecido, resposta terapêutica inesperadamente ruim.
Diante de um desses, o repertório que a literatura descreve costuma incluir hemograma, TSH, glicemia, função renal e hepática, eletrólitos, vitamina B12 e sorologias quando há exposição ou fator de risco — sempre selecionados pela hipótese, não pedidos em bloco. Se a suspeita é de uma condição específica, o exame certo é o daquela condição; se não há hipótese, o exame provavelmente não vai mudar nada.
Vale lembrar o que a própria APA registra sobre medicamentos em uso: eles podem produzir falso-positivo em toxicologia e alterar outros achados laboratoriais, levando a diagnóstico incorreto. A lista de medicações do paciente é, muitas vezes, o "exame" mais informativo da consulta — e é grátis. Se você está estruturando essa consulta do zero, o roteiro completo está em primeira consulta em psiquiatria adulta em 10 passos.
Os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde são bem menos vagos do que a memória costuma sugerir. O PCDT do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I (Portaria SAS/MS nº 315/2016) diz que, antes do início do tratamento com qualquer um dos medicamentos do protocolo, é obrigatória a avaliação de idade, medidas antropométricas (peso, altura, circunferência abdominal e do quadril), três medidas de pressão arterial em datas diferentes, colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum e hemograma — além da história familiar ou prévia de síndrome neuroléptica maligna, suicídio, obesidade, hipertensão, diabetes e outras comorbidades. O PCDT da Esquizofrenia (Portaria SAS/MS nº 364/2013) repete quase a mesma bateria.
E aí vêm os acréscimos por fármaco, com a periodicidade da Tabela 1 do PCDT do bipolar:
| Fármaco | Antes de iniciar (além da bateria comum) | Repetição prevista no PCDT |
|---|---|---|
| Carbonato de lítio | TSH, creatinina e ureia séricos | Creatinina e ureia a cada 3 meses; TSH, cálcio sérico e litemia a cada 6 meses |
| Ácido valproico | Avaliação da função hepática | Hemograma e função hepática (ALT/TGP, AST/TGO) a cada 3 meses; nível sérico a cada 6 meses |
| Carbamazepina | ALT/TGP, AST/TGO, creatinina, ureia e eletrólitos (sódio e potássio) | Mensal nos 3 primeiros meses; depois anual; nível sérico a cada 6 meses |
| Lamotrigina | Bateria comum | Hemograma e função hepática anuais |
| Antipsicóticos | Bateria comum (peso, cintura, PA, glicemia, lipídios) | Glicemia de jejum e perfil lipídico a cada 3 meses no primeiro ano; depois anuais, com eletrocardiograma |
| Clozapina | Bateria comum | Hemograma semanal nas 18 primeiras semanas (e a cada aumento de dose); mensal enquanto durar o uso |
Duas observações honestas sobre a tabela. Primeira: ela é o piso do protocolo público, não um teto — a bula vigente do produto e a situação clínica podem pedir mais. Segunda: o PCDT da esquizofrenia adota intervalos ligeiramente diferentes para a repetição metabólica (antropometria e pressão em 3, 6 e 12 meses; lipídios e glicemia em 3 e 12 meses, depois anuais). Escolha o protocolo do quadro que você está tratando e registre qual seguiu. O detalhamento do lítio, que é o caso mais delicado, está em o checklist de monitorização do lítio.
O rastreio metabólico de quem usa antipsicótico não nasceu no Brasil: ele vem do consenso de 2003 entre a American Diabetes Association, a APA, a American Association of Clinical Endocrinologists e a North American Association for the Study of Obesity, publicado em Diabetes Care em 2004. É de lá que vem o hábito de medir cintura e pedir glicemia e lipidograma antes de começar — hoje incorporado aos nossos protocolos.
Os PCDT não impõem beta-hCG universal. O do bipolar diz que todo medicamento deve ser administrado com cautela em mulheres com potencial de engravidar e que os riscos gestacionais devem ser discutidos. O da esquizofrenia é mais direto para alguns fármacos: mulheres em idade fértil devem ser esclarecidas sobre contracepção e, "em caso de dúvida, sugere-se teste de gravidez antes do início do tratamento". Na dúvida, peça — e registre a conversa.
A APA tem uma recomendação específica sobre isso: a avaliação inicial deve incluir documentação da justificativa dos exames solicitados (Guideline IX, statement 2, com grau de sugestão 2C). Não é burocracia — é o que permite a você, ou a quem receber o caso, entender depois por que aquele exame entrou e o que se esperava dele.
Duas linhas resolvem. Exemplo fictício: "Solicitados TSH, creatinina e ureia — linha de base pré-lítio conforme PCDT TAB I. Solicitada B12 pela associação de queixa cognitiva com dieta restritiva há 2 anos. Não solicitados exames de rotina adicionais: sem sinais de alerta ao exame e acompanhamento clínico regular em dia." A última frase é a que mais falta nos prontuários — registrar o que você decidiu não pedir, e por quê, é tão informativo quanto o pedido. O mesmo raciocínio vale para as escalas: quais escalas aplicar na primeira consulta segue a mesma lógica de escolher pelo que muda conduta.
Não. A diretriz da APA orienta pedir exames quando o resultado tem chance de alterar a decisão diagnóstica ou terapêutica, e desaconselha o teste "de rotina" sem alvo. A exceção é a linha de base exigida antes de fármacos específicos.
Além da bateria comum a todos os medicamentos do protocolo (antropometria, três aferições de pressão, colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum e hemograma), o PCDT do Transtorno Afetivo Bipolar tipo I exige TSH, creatinina e ureia séricos.
Sim, e a APA sugere exatamente isso: se há avaliação clínica recente com o profissional de atenção primária, revisar história, exame físico e exames existentes pode substituir a repetição. Registre a data e a origem dos resultados aproveitados.
Os PCDT brasileiros preveem hemograma semanal nas 18 primeiras semanas de tratamento — e a cada aumento de dose — e mensal enquanto durar o uso do medicamento. Confirme sempre na bula vigente do produto que você prescreveu.
Conteúdo revisado em 7 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.
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