AUDIT: como aplicar e interpretar o rastreio de uso de álcool
Dez perguntas da OMS, quatro zonas de risco e uma conduta sugerida para cada uma. O AUDIT é o rastreio de álcool mais validado do mundo — e o detalhe das questões 9 e 10 muda a pontuação.
O que é o AUDIT, em uma resposta direta
O AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test) é um questionário de 10 itens desenvolvido num projeto colaborativo da Organização Mundial da Saúde para identificar consumo de risco, uso nocivo e provável dependência de álcool (Saunders et al., 1993). A pontuação vai de 0 a 40, o limiar clássico de rastreio positivo é ≥ 8, e o manual da OMS organiza o resultado em quatro zonas de risco, cada uma com uma conduta sugerida. Tem estudo de validade brasileiro (Lima et al., 2005) e é de uso livre.
Último ano (itens 9–10 também "alguma vez na vida")
Aplicação
Autoaplicado ou em entrevista (~3 minutos)
Limiar de rastreio
≥ 8 (consumo de risco ou nocivo)
Custo
Uso livre (instrumento da OMS)
Original
Saunders et al. (1993), Addiction — projeto OMS
Estudo brasileiro
Lima et al. (2005), Alcohol and Alcoholism — corte 7/8
Como aplicar no consultório
O AUDIT funciona autoaplicado (papel, tablet ou portal do paciente) ou lido em entrevista — as duas formas são previstas pela OMS. Três cuidados práticos:
Defina "dose padrão" antes. As perguntas de quantidade dependem do conceito de dose (~10–14 g de etanol: uma lata de cerveja, uma taça de vinho, uma dose de destilado). Sem esse alinhamento, o paciente subestima.
Tom neutro. O instrumento foi desenhado para soar como levantamento de hábitos, não interrogatório — apresentá-lo como rotina para todos os pacientes reduz defensividade.
Atenção às questões 9 e 10 ("alguém já se machucou por causa da sua bebida?", "alguém já sugeriu que você parasse?"): elas pontuam 0, 2 ou 4 — e podem ser positivas para eventos passados, mesmo com consumo atual baixo.
Como interpretar: as quatro zonas de risco
Faixas do manual de uso da OMS — as mesmas da nossa calculadora:
Pontuação
Zona
Conduta sugerida pelo manual
0–7
Uso de baixo risco
Educação sobre o álcool
8–15
Uso de risco
Aconselhamento simples (orientação breve)
16–19
Uso nocivo
Aconselhamento + intervenção breve + monitoramento
20–40
Provável dependência
Encaminhamento para avaliação diagnóstica e tratamento especializado
O AUDIT não é só um detector — cada zona já vem com o próximo passo. É um dos raros rastreios que entregam a conduta junto com o número.
O que o AUDIT não faz
Não diagnostica transtorno por uso de álcool — zona 20–40 indica avaliação diagnóstica, não fecha o diagnóstico.
Não rastreia outras substâncias — para triagem ampla de substâncias existem instrumentos próprios (ex.: ASSIST, também da OMS).
Depende de autorrelato — subnotificação é esperada em contextos de estigma; o escore é piso, não teto.
Na prática da saúde mental
Álcool interage com quase tudo que a psiquiatria trata: piora depressão e ansiedade, interfere com sono, antagoniza tratamento e aumenta risco em uso de sedativos. Por isso o AUDIT rende como rastreio de rotina na primeira avaliação — e reaplicado quando a resposta ao tratamento não vem. No CliniqMais, o AUDIT é aplicado na consulta ou pelo portal do paciente, com a zona de risco calculada automaticamente e a série registrada no gráfico longitudinal (disponível nos planos pagos; o plano gratuito inclui PHQ-9, GAD-7 e ASRS).
O AUDIT-C usa só as 3 primeiras perguntas (consumo) como ultrarrastreio rápido. O AUDIT completo acrescenta os domínios de dependência e problemas relacionados — em saúde mental, o completo costuma valer os 2 minutos extras.
AUDIT 8 já é alcoolismo?
Não. A faixa 8–15 indica uso de risco — a conduta sugerida é aconselhamento breve, não tratamento de dependência. "Alcoolismo" (transtorno por uso de álcool) é diagnóstico clínico.
Babor TF, Higgins-Biddle JC, Saunders JB, Monteiro MG. AUDIT — The Alcohol Use Disorders Identification Test: Guidelines for Use in Primary Care. 2ª ed. Organização Mundial da Saúde; 2001 (zonas de risco e condutas).
Conteúdo revisado em 9 de agosto de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Este texto não substitui avaliação clínica individualizada; escalas de rastreio não fazem diagnóstico.