IA generativa e referências inventadas: como checar uma citação em 2 minutos

Autores plausíveis, periódico real, ano redondo — e o artigo não existe. Os números dos estudos que mediram isso e uma rotina de quatro passos que cabe em dois minutos antes de citar.

Resposta direta

Modelo de linguagem não consulta uma biblioteca: ele prevê o texto mais provável. Por isso a referência sai com cara de referência — e pode não existir. No estudo de Walters e Wilder (2023), 55% das citações produzidas pelo ChatGPT-3.5 e 18% das do ChatGPT-4 eram fabricadas. Em textos médicos gerados pelo ChatGPT-3.5, Bhattacharyya e colaboradores (2023) encontraram 47% de referências fabricadas e apenas 7% autênticas e exatas.

A conclusão prática é simples: toda citação vinda de IA precisa ser conferida antes de entrar em laudo, parecer, aula ou artigo. A checagem leva cerca de dois minutos e tem quatro passos — DOI, PubMed, Crossref e leitura do resumo.

O que os estudos realmente mediram

Walters e Wilder pediram a ChatGPT-3.5 e ChatGPT-4 revisões curtas sobre 42 temas de várias áreas e analisaram as 636 citações dos 84 textos resultantes. Além das fabricações, mediram erros nas citações que eram reais: 43% das citações verdadeiras do GPT-3.5 e 24% das do GPT-4 tinham erros substantivos. O trabalho saiu na Scientific Reports (13:14045).

Bhattacharyya e colaboradores fizeram o recorte médico: 30 textos curtos gerados pelo ChatGPT-3.5, 115 referências no total. Das sete partes de cada referência, a que mais errava era o PMID — número incorreto em 93% dos artigos —, seguido de volume (64%), páginas (64%) e ano (60%). Em média, 4,3 dos 7 componentes estavam errados por referência.

Duas ressalvas honestas. Primeira: esses números são de 2023 e descrevem os modelos daquela geração; não servem como medida do que uma ferramenta específica faz hoje. Segunda: eles descrevem um mecanismo que não desapareceu. Sistemas que buscam em bases reais antes de responder reduzem muito o problema, mas continuam podendo atribuir a um artigo real um achado que ele não traz — e essa é a falha mais perigosa, porque passa na conferência superficial.

A rotina de dois minutos

  1. DOI primeiro (15 segundos). Cole o DOI em doi.org. Resolveu para o artigo com aquele título? Bom sinal. Não resolveu, ou abriu outro trabalho? A referência caiu.
  2. PubMed pelo título (30 segundos). Cole o título entre aspas na busca. Se não achar, tente autor + ano no Single Citation Matcher. Nunca confie no PMID que a IA escreveu: no estudo do Cureus foi justamente o campo mais errado.
  3. Crossref ou base regional (30 segundos). Nem tudo está no PubMed — periódicos brasileiros de psicologia, por exemplo, costumam estar na SciELO ou no Crossref. Uma busca por título em search.crossref.org resolve boa parte dos casos.
  4. Leia o resumo (45 segundos). Este é o passo que quase todo mundo pula. Achar o artigo prova que ele existe; não prova que ele diz o que foi afirmado. Confira se o desenho, a população e o achado citado batem.

A pergunta não é "essa referência existe?". É "essa referência diz isso?". São duas checagens diferentes, e é a segunda que evita um laudo sustentado por um artigo que conclui o contrário.

Onde cada elemento é conferido

ElementoOnde conferirSinal de alerta
DOIdoi.orgNão resolve, ou abre título diferente
PMIDPubMed (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/PMID)Abre outro artigo — o erro mais comum
Título e autoresPubMed, Crossref, SciELOAutores reais da área, artigo inexistente
Volume, número, páginasPágina do artigo no periódicoNúmeros "bonitos" que não batem com o fascículo
O achado citadoResumo ou texto completoConclusão mais forte ou mais conveniente do que a do artigo
Norma brasileira (CFM, CFP, Anvisa)Portal do conselho ou Diário OficialNúmero de resolução sem link oficial correspondente

Os sinais de que a citação é sintética

Referência fabricada raramente é absurda — ela é plausível. O padrão típico recombina peças verdadeiras: autores que de fato publicam naquele tema, um periódico que de fato existe e cobre aquele assunto, um ano recente e redondo, um título que soa exatamente como o que você procurava. Quanto mais a citação parece feita sob medida para o seu argumento, mais rápido ela deve ir para a checagem.

Vale o mesmo cuidado com normas. "Resolução CFM nº X/ano" e "RDC nº Y/ano" são o tipo de string que um modelo produz com facilidade e confiança. Regra prática: número de norma só entra no texto acompanhado do link do portal oficial ou do Diário Oficial. Escrevi sobre esse mesmo hábito de revisão em como revisar texto clínico gerado por IA em 60 segundos.

Por que isso é questão ética, não só acadêmica

A Resolução CFM nº 2.454/2026 é direta no art. 7º: o médico "permanece integralmente responsável pelos atos médicos por ele praticados mediante a utilização de modelos, sistemas e aplicações de IA", e o §1º acrescenta que usar IA não afasta o Código de Ética Médica. Antes disso, o art. 4º já lista entre os deveres exercer julgamento crítico sobre o que a IA devolve (inciso II) e registrar no prontuário o uso de sistemas de IA como apoio à decisão médica (inciso V).

Traduzindo para o laudo: se uma referência inventada sustenta uma conclusão sua, o problema é seu. Para psicólogas e psicólogos, a lógica é a mesma: a Resolução CFP nº 09/2024 atribui à profissional a responsabilidade de avaliar a adequação das tecnologias digitais que usa (art. 3º, §1º), e a cartilha do CFP sobre inteligência artificial (2025) reforça que a IA não substitui o julgamento ético e técnico da profissional — tema que a equipe detalhou em o que o psicólogo pode fazer com IA.

Há ainda a camada de dados, que é onde vejo mais dúvida no consultório: colar trecho de prontuário num chat público para "pedir a referência" expõe dado sensível sem necessidade. Tratei disso em posso usar o ChatGPT para escrever a evolução do paciente?. No CliniqMais, o resumo por IA só é finalizado depois que o profissional confirma a revisão, e o uso da IA fica nos metadados da evolução e na trilha de auditoria — mas nenhuma ferramenta transfere para si a responsabilidade de conferir a fonte.

Perguntas frequentes

A IA pode simplesmente me dar o link do artigo?

Ela pode gerar um link com formato correto e destino inexistente. Trate o link como parte da citação a ser verificada: abra, veja se o título bate e se o resumo sustenta o que foi afirmado.

Modelos com busca na internet resolvem o problema?

Reduzem bastante a fabricação de referências, porque partem de resultados reais. Não eliminam o segundo erro, que é atribuir a um artigo verdadeiro um achado que ele não traz — por isso o passo de ler o resumo continua obrigatório.

E quando o artigo não está no PubMed?

Muita produção brasileira em psicologia e saúde coletiva está na SciELO ou indexada só no Crossref. Busque pelo título nessas bases antes de concluir que a referência é falsa; ausência no PubMed não é prova de inexistência.

Preciso registrar no prontuário que usei IA para escrever um relatório?

A CFM 2.454/2026 exige registrar no prontuário o uso de sistemas de IA como apoio à decisão médica (art. 4º, V). A resolução não define formato nem campos desse registro — uma linha objetiva na evolução, dizendo o que foi usado e que houve revisão médica, cumpre o dever.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 30 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.

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