Dia do Médico: o que sabemos (de verdade) sobre a saúde mental dos médicos no Brasil
No 18 de outubro, sem número inventado: o que as meta-análises mostram sobre depressão, burnout e suicídio em médicos, que dado brasileiro existe e o que o Código de Ética diz sobre adoecer.
Há evidência internacional consistente de alta prevalência de sintomas depressivos em médicos residentes e de risco de suicídio acima do da população geral entre médicos — e evidência muito mais frágil sobre o tamanho do problema no Brasil. Uma meta-análise publicada no JAMA em 2015 estimou prevalência de depressão ou sintomas depressivos em 28,8% dos médicos residentes. Uma revisão sistemática de 2018, na mesma revista, encontrou tanta variação na forma de medir burnout que os autores consideraram inadequado calcular uma média. E uma meta-análise de 2019 estimou razão de mortalidade padronizada por suicídio de 1,44 entre médicos.
No Brasil, existem estudos reais e bem-feitos — mas em recortes específicos. Não localizei, para esta revisão, um levantamento nacional de amostra probabilística que meça a saúde mental do conjunto dos médicos brasileiros. Escrever isso, num 18 de outubro, me parece mais útil do que repetir um percentual bonito de origem desconhecida.
Depressão na residência: o número mais bem estabelecido
Douglas Mata e colaboradores reuniram 31 estudos transversais (9.447 pessoas) e 23 longitudinais (8.113 pessoas) sobre depressão em residentes. A prevalência agrupada foi de 28,8% (IC 95%: 25,3% a 32,5%).
Dois detalhes desse trabalho importam mais que o número redondo. O primeiro: a estimativa variou de 20,9% quando o instrumento era o PHQ-9 com nota de corte 10 ou mais, até 43,2% quando era o PRIME-MD de dois itens. A escala escolhida move o resultado em mais de vinte pontos percentuais. O segundo: em sete estudos longitudinais, o aumento absoluto mediano de sintomas depressivos com o início da residência foi de 15,8%. Ou seja, algo acontece na transição — não é só quem já estava adoecido.
Burnout: por que não existe "o" percentual
Lisa Rotenstein e colaboradores extraíram dados de 182 estudos, com 109.628 médicos em 45 países, publicados entre 1991 e 2018. A maioria (85,7%) usou alguma versão do Maslach Burnout Inventory. Ainda assim, os autores identificaram pelo menos 142 definições distintas do que contaria como burnout — e as prevalências relatadas variaram de 0% a 80,5%.
A conclusão deles foi de que a heterogeneidade impedia agrupar os dados. Isso não significa que burnout não exista ou não importe; significa que qualquer manchete com um percentual único de burnout em médicos está escondendo a escolha de critério que produziu aquele número.
Quando o mesmo grupo de médicos pode aparecer como 61,7% ou 5% de burnout, a depender da régua, o número deixa de ser informação e vira retórica.
E no Brasil?
O parêntese acima não é hipotético. Em 2016, Márcia Tironi e colaboradores publicaram na Revista Brasileira de Terapia Intensiva um estudo com 180 médicos intensivistas, em amostra aleatória estratificada por conglomerado em cinco capitais — Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Goiânia e Belém. Metade da amostra (50,3%) tinha carga horária semanal entre 49 e 72 horas.
Na mesma amostra, a prevalência de burnout foi de 61,7% pelo critério de nível alto em pelo menos uma dimensão do MBI, e de 5% pelo critério de nível alto nas três dimensões simultaneamente. Os dois números estão certos. Eles apenas respondem a perguntas diferentes.
Um segundo trabalho brasileiro ajuda a compor o quadro. Em 2023, um grupo da Universidade Federal de Juiz de Fora publicou no International Journal of Social Psychiatry uma comparação entre 1.417 participantes — estudantes de medicina, residentes e médicos formados (os subtotais informados no resumo do artigo, 778, 190 e 468, não fecham exatamente com o total) — usando a DASS-21. Os estudantes apresentaram escores de depressão, ansiedade e estresse significativamente mais altos que residentes e médicos formados, sem diferença significativa entre estes dois últimos grupos.
São estudos legítimos, com métodos declarados. Mas um descreve intensivistas de cinco capitais e o outro, participantes recrutados por um grupo de uma universidade federal. Nenhum autoriza a frase "X% dos médicos brasileiros têm burnout". Sempre que vir essa frase, vale procurar a fonte antes de repassar.
Suicídio: o dado que exige mais cuidado
Frédéric Dutheil e colaboradores conduziram revisão sistemática e meta-análise sobre suicídio em profissionais de saúde. Entre médicos, a razão de mortalidade padronizada foi de 1,44 (IC 95%: 1,16 a 1,72), com heterogeneidade alta entre os estudos. Médicas apresentaram risco maior (SMR 1,9; IC 95%: 1,49 a 2,58). A prevalência agrupada de ideação suicida foi de 17% (IC 95%: 12% a 21%). Os autores também observaram queda das taxas ao longo do tempo, especialmente na Europa.
Esses números descrevem uma população, não uma pessoa. Nenhum deles diz que ser médico causa adoecimento, nem que médicos não melhoram — a maioria melhora, com tratamento, como qualquer paciente. Trato colegas no consultório e essa é a parte que raramente aparece nas estatísticas: procurar ajuda funciona.
O que o Código de Ética diz sobre o médico que adoece
Uma barreira que escuto com frequência é o medo de que buscar tratamento gere alguma consequência junto ao conselho. Vale ler o que o texto realmente diz. O Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018), no capítulo de direitos do médico, item XI, é explícito:
"É direito do médico com deficiência ou com doença, nos limites de suas capacidades e da segurança dos pacientes, exercer a profissão sem ser discriminado."
No Código de Ética, a previsão de suspensão por motivo de saúde está nas disposições gerais, item I: o médico "portador de doença incapacitante para o exercício profissional, apurada pelo Conselho Regional de Medicina em procedimento administrativo com perícia médica, terá seu registro suspenso enquanto perdurar sua incapacidade". Repare nas três condições: doença incapacitante, apuração em procedimento administrativo com perícia, e suspensão enquanto perdurar a incapacidade.
O procedimento é regulamentado pela Resolução CFM nº 2.164/2017: a apuração é feita pelo CRM, com perícia por junta médica, e tramita em sigilo. Os desfechos possíveis vão do arquivamento a restrições parciais ou totais, temporárias ou permanentes, e o CRM pode, em decisão fundamentada, interditar cautelarmente o médico durante a apuração. O critério, em todos os casos, é a incapacidade para o exercício — não o diagnóstico em si.
Ter depressão, ansiedade ou insônia não é, por si, doença incapacitante para o exercício da medicina — e tratar-se é justamente o que reduz o risco de chegar lá. O sigilo da sua consulta com outro profissional é o mesmo sigilo que você garante aos seus pacientes.
O que fazer com isso hoje
Sugestões concretas, sem promessa de resultado. Primeiro: se você é residente ou recém-formado, saiba que a queda de humor no início da formação é um fenômeno descrito, não um defeito seu — escrevi sobre esse desconforto em síndrome do impostor no jovem médico. Segundo: cuide do sono como variável clínica; os efeitos de plantão sobre desempenho estão bem medidos e discuto os números em plantão, privação de sono e desempenho. Terceiro: tenha um médico. Não um colega de corredor a quem você descreve sintomas no elevador — um profissional, com consulta marcada e prontuário.
Vale procurar quais programas de apoio ao médico existem na sua instituição e no seu conselho regional — a oferta varia entre regiões. Se você quer entender melhor a diferença entre exaustão ocupacional e um quadro que pede tratamento, o ponto de partida é burnout em psiquiatras e a saúde mental do médico no Brasil.
Perguntas frequentes
Qual a prevalência de depressão entre médicos residentes?
A meta-análise de Mata e colaboradores (JAMA, 2015) estimou 28,8% (IC 95%: 25,3% a 32,5%) para depressão ou sintomas depressivos, com variação de 20,9% a 43,2% conforme o instrumento usado.
Existe um dado nacional confiável de burnout em médicos brasileiros?
Existem estudos brasileiros sérios, mas em recortes — como o de intensivistas em cinco capitais (2016) e o de um grupo de uma universidade federal (2023). Não localizamos um levantamento de amostra probabilística nacional que permita falar em "os médicos brasileiros" como um todo.
Buscar tratamento psiquiátrico pode prejudicar meu registro no CRM?
O Código de Ética Médica assegura ao médico com doença o direito de exercer a profissão sem ser discriminado. A suspensão de registro está prevista para doença incapacitante apurada pelo CRM em procedimento administrativo sigiloso, com perícia médica. A Resolução CFM nº 2.164/2017 admite desde o arquivamento até restrições parciais ou totais, temporárias ou permanentes; ter um diagnóstico e tratar-se não é, por si, o que dispara esse procedimento.
Por que os percentuais de burnout variam tanto entre reportagens?
Porque não há definição única. A revisão de Rotenstein e colaboradores (JAMA, 2018) identificou pelo menos 142 definições diferentes em 182 estudos, com prevalências de 0% a 80,5%. Sempre vale perguntar qual critério gerou o número.
Fontes consultadas
Mata DA, Ramos MA, Bansal N, et al. Prevalence of depression and depressive symptoms among resident physicians: a systematic review and meta-analysis. JAMA. 2015;314(22):2373-2383. PubMed
Rotenstein LS, Torre M, Ramos MA, et al. Prevalence of burnout among physicians: a systematic review. JAMA. 2018;320(11):1131-1150. PubMed
Dutheil F, Aubert C, Pereira B, et al. Suicide among physicians and health-care workers: a systematic review and meta-analysis. PLoS One. 2019;14(12):e0226361. PubMed
Tironi MOT, Teles JMM, Barros DS, et al. Prevalência de síndrome de burnout em médicos intensivistas de cinco capitais brasileiras. Rev Bras Ter Intensiva. 2016;28(3):270-277. PubMed
de Sá e Camargo ML, Torres RV, Cotta KCG, et al. Mental health throughout the medical career: a comparison of depression, anxiety, and stress levels among medical students, residents, and physicians. Int J Soc Psychiatry. 2023;69(5):1260-1267. PubMed
Se você está em crise: ligue 188 (CVV, gratuito, 24h) ou procure um CAPS, UPA ou o SAMU (192).
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