Convênio ou particular na psiquiatria: como decidir com os seus números (não com os dos outros)
A decisão não se resolve com opinião de grupo de WhatsApp. Seis números do seu consultório, o que a regulação define de fato (rol, TISS, contrato) e uma tabela para você preencher antes de escolher.
A escolha entre convênio e particular não se decide por opinião: decide-se por seis números do seu próprio consultório. Custo por hora, valor líquido recebido por hora em cada canal, prazo médio de recebimento, percentual de faturamento glosado, taxa de ocupação da agenda e taxa de faltas por canal. Com esses seis, a conta é aritmética. Sem eles, qualquer resposta é palpite — inclusive a de quem "já fez a conta" com a realidade de outra cidade, outra especialidade e outro contrato.
Este texto não traz valores de honorários nem de repasse: traz o método, o que a regulação define e uma tabela para você preencher.
O que a regulação define — e o que ela deixa para o contrato
Três pontos costumam ser mal compreendidos e mudam a leitura da conta.
1. Consulta médica não tem limite anual. A Resolução Normativa ANS nº 465/2021, no art. 18, I, garante ao plano ambulatorial "consultas médicas em número ilimitado em clínicas básicas e especializadas". Consultas e sessões com psicólogo e sessões de psicoterapia, que no texto original seguiam "o número de sessões estabelecido nos Anexos" (incisos III e IV), deixaram de ter limite de número no rol desde 1º de agosto de 2022: a RN ANS nº 541/2022 revogou as diretrizes de utilização que fixavam esses tetos, e o atendimento passou a considerar a prescrição do médico assistente. A mesma RN, no art. 10, determina priorizar o atendimento ambulatorial e em consultórios nos transtornos mentais, deixando a internação psiquiátrica como último recurso.
2. O rol não encerra a conversa. A RN 465/2021 considera o rol taxativo para fins de cobertura (art. 2º), podendo a operadora oferecer mais. Depois dela, a Lei nº 14.454/2022 incluiu na Lei nº 9.656/1998 os §§ 12 e 13 do art. 10: o rol passa a ser a "referência básica", e tratamento prescrito fora dele "deverá ser autorizado" quando houver comprovação de eficácia baseada em evidências e plano terapêutico, ou recomendação da Conitec ou de órgão internacional de avaliação de tecnologias. Em 18/09/2025, ao julgar a ADI 7265, o STF fixou que a cobertura fora do rol depende de cinco requisitos cumulativos: prescrição do médico ou odontólogo assistente; ausência de negativa expressa da ANS ou de análise pendente de inclusão no rol; falta de alternativa terapêutica adequada no rol; comprovação científica de eficácia e segurança; e registro na Anvisa. Para o consultório, o que importa é que a lista não é a última palavra, mas o pedido precisa ser fundamentado nesses cinco pontos.
3. Faturamento tem padrão obrigatório. A RN ANS nº 501/2022 instituiu o Padrão TISS, cujas finalidades incluem padronizar "solicitação, autorização, cobrança, demonstrativos de pagamento e recursos de glosas" (art. 3º), com troca eletrônica sempre na versão vigente (art. 7º). Traduzindo para a rotina: atender por convênio significa incorporar um processo administrativo — guias, autorização, envio, conferência do demonstrativo e recurso quando houver glosa. Esse tempo é seu e entra na conta.
Convênio não é "receber menos". É receber outro valor, em outro prazo, com outro custo administrativo e outro volume. A decisão só aparece quando os quatro entram na mesma planilha.
O contrato é onde moram os números que decidem
Desde a Lei nº 13.003/2014, que incluiu o art. 17-A na Lei nº 9.656/1998, a relação entre operadora e prestador — inclusive o profissional de saúde em prática liberal, pessoa física — deve ser regulada por contrato escrito (art. 17-A, caput e § 1º). E o § 2º, II exige que esse contrato defina "os valores dos serviços contratados, dos critérios, da forma e da periodicidade do seu reajuste e dos prazos e procedimentos para faturamento e pagamento".
Há uma regra de calendário que poucos usam a favor: o § 3º determina reajuste anual, no prazo improrrogável de 90 dias contados do início de cada ano-calendário; vencido o prazo, a ANS definirá o índice quando for o caso (§ 4º). O primeiro trimestre é, portanto, a janela natural para tratar de reajuste — com o contrato à mão.
Os seis números — a tabela para você preencher
Levante um período de referência (sugestão: os últimos 6 ou 12 meses) e preencha uma coluna para cada canal. Uma planilha resolve.
Indicador
Como obter
Particular
Convênio
Custo por hora do consultório
Custos fixos + variáveis do período ÷ horas efetivamente disponíveis para atendimento
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Valor líquido por atendimento
Valor recebido menos taxas, impostos e materiais
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Tempo total por atendimento
Duração da consulta + tempo administrativo (guia, faturamento, glosa)
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Valor líquido por hora
Valor líquido ÷ tempo total, em horas
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Prazo médio de recebimento
Dias entre o atendimento e o crédito efetivo
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Percentual glosado (e recuperado)
Valor glosado ÷ valor faturado; e quanto voltou após recurso
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Taxa de ocupação
Horas atendidas ÷ horas disponíveis
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Taxa de faltas
Faltas ÷ agendamentos, medida por canal de origem
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A comparação honesta é entre valor líquido por hora — não entre preços de tabela. Uma consulta particular de 50 minutos e uma consulta de convênio de 30 minutos com 10 minutos de trabalho administrativo não são a mesma unidade. Se você ainda não estruturou o custo por hora, comece por como precificar a consulta em saúde mental: sem esse denominador, os outros cinco números não significam nada.
Dois indicadores costumam mudar a resposta mais do que o valor da consulta. O primeiro é a ocupação: agenda com buracos derruba o líquido por hora de qualquer canal. O segundo é a falta — e ela se comporta de modo diferente conforme a origem do paciente, o que só aparece se você registrar o canal no agendamento. Reunimos o que funciona em como reduzir o no-show, e a discussão sobre cobrar por ausências está em posso cobrar quando o paciente falta. Se a sua agenda e os recebimentos já ficam no prontuário eletrônico, esses números saem de lá — no CliniqMais, por exemplo, o perfil de secretária enxerga a agenda sem acessar o conteúdo clínico.
Vantagens e desvantagens, sem torcida
Convênio
Particular
Demanda
Tende a vir da rede credenciada
Depende de reputação, indicação e presença digital
Previsibilidade
Volume mais estável; valor e reajuste vêm do contrato
Volume mais sazonal; preço definido por você
Fluxo de caixa
Recebimento posterior, sujeito a glosa e recurso
Recebimento no ato ou em prazo curto
Carga administrativa
Guias, autorizações e faturamento no padrão TISS
Recibo, nota fiscal e controle próprio
Autonomia de agenda
Duração e intervalo pautados pelo volume necessário
Você define duração, intervalo e política de faltas
Risco de concentração
Uma só operadora expõe a mudanças de contrato
Uma só fonte de indicação tem risco equivalente
O modelo híbrido — e como testá-lo sem apostar tudo
Muita gente opera nos dois canais. O híbrido faz sentido quando o convênio preenche horários que ficariam vazios e o particular sustenta o líquido por hora. Deixa de fazer sentido quando o volume empurra a duração da consulta para baixo do que o cuidado exige — aí o problema não é financeiro, é clínico.
Um teste razoável: reserve um bloco fixo semanal para um dos canais, mantenha por três meses, e reavalie com os mesmos seis indicadores. É tempo suficiente para a agenda encontrar seu ritmo e curto o bastante para corrigir a rota. Anote a decisão e o motivo.
Perguntas frequentes
Plano de saúde pode limitar o número de consultas com psiquiatra?
Pela RN ANS nº 465/2021, o plano ambulatorial deve garantir consultas médicas em número ilimitado nas especialidades reconhecidas pelo CFM. Desde 1º de agosto de 2022 (RN ANS nº 541/2022), consultas e sessões com psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta também não têm limite de número no rol — o atendimento considera a prescrição do médico assistente.
Se o tratamento não está no rol, o convênio pode simplesmente negar?
A Lei nº 14.454/2022 incluiu na Lei nº 9.656/1998 critérios para autorização de tratamento prescrito e não previsto no rol. Em 18/09/2025, no julgamento da ADI 7265, o STF fixou cinco requisitos cumulativos: prescrição do médico ou odontólogo assistente; ausência de negativa expressa da ANS ou de análise pendente de inclusão; falta de alternativa adequada no rol; comprovação científica de eficácia e segurança; e registro na Anvisa. Fundamentar bem o pedido, com esses cinco pontos, é parte do trabalho.
Preciso mesmo de contrato escrito com a operadora?
Sim. A Lei nº 13.003/2014, ao incluir o art. 17-A na Lei nº 9.656/1998, tornou o contrato escrito obrigatório, inclusive para o profissional em prática liberal como pessoa física, e exige cláusulas sobre valores, reajuste e prazos de faturamento e pagamento.
Quando é a hora de pedir reajuste?
A lei estabelece reajuste anual, a ser realizado no prazo improrrogável de 90 dias contados do início de cada ano-calendário. Na prática, o primeiro trimestre é a janela — chegue nela com o contrato lido e os seus números levantados.
Resolução Normativa ANS nº 465, de 24 de fevereiro de 2021 — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde (arts. 2º, 10 e 18), texto oficial no portal de legislação da ANS.
Resolução Normativa ANS nº 501, de 30 de março de 2022 — Padrão TISS (arts. 1º, 3º, 7º e 11), texto oficial no portal de legislação da ANS.
Conteúdo revisado em 30 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.