Escala de Sonolência de Epworth: como aplicar e interpretar (e o que ela não diz)

Oito situações, escore de 0 a 24 e uma pergunta só: qual a chance de cochilar? Veja as faixas oficiais de interpretação, o que a Epworth não mede e por que ela pesa na consulta psiquiátrica.

Resposta direta

A Escala de Sonolência de Epworth (ESS) tem 8 itens, cada um pontuado de 0 a 3, com escore total de 0 a 24. Pelas faixas do próprio autor, 0 a 5 indica sonolência diurna normal baixa; 6 a 10, normal alta; 11 a 12, sonolência diurna excessiva leve; 13 a 15, moderada; e 16 a 24, grave. Ou seja: a partir de 11 o escore já sinaliza sonolência diurna excessiva.

Ela mede uma coisa só — a chance de cochilar ou adormecer em situações do dia a dia, "in recent times". Não mede cansaço, não mede insônia e, nas palavras do site oficial, "não é uma ferramenta diagnóstica por si só".

O que a escala mede de fato

A ESS foi descrita por Murray Johns em 1991, na revista Sleep, com 180 adultos: 30 controles e 150 pacientes com transtornos do sono. Eles avaliavam a chance de cochilar em oito situações comuns da vida diária. Os escores distinguiram os controles de pacientes com apneia obstrutiva do sono, narcolepsia e hipersonia idiopática, e se correlacionaram de forma significativa com a latência do sono medida no teste múltiplo de latências do sono e na polissonografia.

O detalhe que muda a conversa no consultório: o escore total estima o que o autor chama de average sleep propensity — a propensão média a adormecer. Isso é diferente de "estar cansado". A escala pergunta sobre comportamento (cochilei?), não sobre sensação (sinto-me exausto?). Paciente com fadiga por depressão pode ter Epworth baixo; paciente com apneia pode ter Epworth alto sem se queixar de cansaço.

No Brasil, a versão em português foi validada por Bertolazi e colaboradores em 2009, no Jornal Brasileiro de Pneumologia, com 114 pacientes e 21 controles. A confiabilidade global dos 8 itens foi de 0,83, e a conclusão foi de que a ESS-BR é instrumento válido e confiável, equivalente à versão original.

Como aplicar em cinco minutos

É autoaplicável. Na prática, funciona melhor assim:

A Epworth só vale como medida repetida. O escore de hoje diz pouco; a diferença entre o de hoje e o de três meses atrás, depois de um ajuste de dose ou de um CPAP, diz muito.

Uma observação sobre uso: a ESS é protegida por direitos autorais e o licenciamento é administrado pela Mapi Research Trust, na França. Conforme o site oficial, alguns usuários pagam taxa de licença e outros não — o pedido é feito pela plataforma da entidade. E o copyright proíbe qualquer alteração no instrumento, salvo circunstância especial e autorização por escrito. Por isso não reproduzimos os oito itens aqui: o caminho correto é solicitar a licença e usar a versão oficial em português.

O que ela não diz

Pergunta clínicaA Epworth responde?O que fazer
Este paciente tem apneia do sono?NãoDiretriz da American Academy of Sleep Medicine recomenda (forte) que questionários e algoritmos não sejam usados para diagnosticar apneia sem polissonografia ou teste domiciliar
Este paciente tem insônia?NãoNa validação brasileira, o grupo com insônia não diferiu dos controles. Use instrumento próprio de insônia
É fadiga ou é sonolência?Ajuda a separarEscore baixo com queixa de cansaço aponta para fadiga, não para propensão a dormir
Melhorou com o tratamento?Sim, como medida repetidaReaplicar em intervalos definidos e registrar a série

A escala tampouco substitui a avaliação clínica do sono. Escore alto pede história de ronco, pausas respiratórias presenciadas, horário e duração do sono, turno de trabalho, uso de substâncias e revisão da lista de medicamentos. Se o quadro sugere apneia moderada a grave, o exame é o caminho — e a diretriz da AASM lembra que a polissonografia, e não o teste domiciliar, é a escolha em situações como doença cardiorrespiratória significativa, uso crônico de opioides e insônia grave. Sobre a insônia propriamente dita, vale o Índice de Gravidade de Insônia (ISI).

Por que isso importa na psiquiatria

Vejo três situações em que a Epworth muda a conduta no consultório.

Antes e depois de um psicofármaco sedativo. Ao introduzir ou aumentar uma medicação com potencial sedativo, um escore de base permite comparar depois. Sem ele, a discussão vira "acho que estou mais sonolento", e a decisão de manter, reduzir ou trocar fica sem apoio.

Depressão que não melhora. Fadiga, lentificação e humor deprimido convivem com transtornos respiratórios do sono. Quando a queixa é de cochilar dirigindo, no trabalho ou conversando — e não apenas de cansaço —, o escore alto justifica investigar o sono antes de escalar a terceira troca de antidepressivo.

TDAH e a queixa de desatenção. Sonolência diurna excessiva prejudica atenção e memória de trabalho. Vale mapear o sono antes de atribuir tudo ao transtorno ou à falta de resposta ao tratamento — o que também aparece na primeira avaliação de TDAH no adulto.

Um cuidado ético: escore alto não autoriza declarar ninguém inapto a dirigir ou trabalhar. Ele orienta a conversa sobre risco e a investigação. E, como toda escala, entra no prontuário como dado, não como diagnóstico — princípio que vale para todo o conjunto de escalas em saúde mental. No CliniqMais, escalas aplicadas ficam registradas com data e escore na linha do tempo do paciente, o que facilita exatamente a leitura em série.

Perguntas frequentes

Qual é o ponto de corte da Escala de Epworth?

Pelas faixas do site oficial, escores de 0 a 10 estão na faixa normal (0 a 5, normal baixa; 6 a 10, normal alta) e valores de 11 em diante indicam sonolência diurna excessiva, graduada em leve (11–12), moderada (13–15) e grave (16–24).

Epworth alto significa apneia do sono?

Não. A diretriz da American Academy of Sleep Medicine recomenda que questionários não sejam usados para diagnosticar apneia sem polissonografia ou teste domiciliar. O escore alto indica sonolência, que tem várias causas possíveis.

A escala serve para medir insônia?

Não. Na validação brasileira, os escores das pessoas com insônia não diferiram dos controles. Para insônia, use um instrumento específico.

Preciso de licença para usar a Epworth no consultório?

A escala é protegida por direitos autorais e o licenciamento é administrado pela Mapi Research Trust. Segundo o site oficial, parte dos usuários paga taxa e parte não — o pedido é feito diretamente à entidade, e o instrumento não pode ser alterado.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 7 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.

← Todos os artigos · Conheça os planos do CliniqMais

CliniqMais — prontuário eletrônico para psiquiatria e saúde mental no Brasil