Plano de segurança (Stanley-Brown): como construir com o paciente em 20 a 45 minutos

Os seis passos do plano de segurança de Stanley e Brown, na ordem certa, com exemplo preenchido, o que a meta-análise mostra e como registrar no prontuário sem transformar a conversa em contrato.

Resposta direta

O plano de segurança é uma lista escrita, construída junto com o paciente, do que ele vai fazer quando os sinais de crise aparecerem. São seis componentes, na ordem proposta por Stanley e Brown (2012): reconhecer sinais de alerta; usar estratégias internas de enfrentamento; recorrer a pessoas e lugares que distraem; pedir ajuda explicitamente a alguém próximo; acionar profissionais e serviços; e tornar o ambiente mais seguro, reduzindo o acesso a meios letais.

Os autores estimam de 20 a 45 minutos para montar a primeira versão. Não é um contrato, não é uma promessa e não é um papel que o paciente assina para tranquilizar quem atende — é uma ferramenta de enfrentamento, escrita nas palavras dele.

Os seis passos, na ordem

A ordem não é decorativa: ela vai do que o paciente consegue fazer sozinho até o que exige outra pessoa. Isso reforça a percepção de que a crise pode ser atravessada, em vez de colocar toda a saída nas mãos de terceiros.

PassoA pergunta que abreCuidado prático
1. Sinais de alerta"O que você percebeu em você nos dias antes da crise?"Pensamentos, imagens, humor e comportamentos concretos. Sinais descritos de forma específica funcionam melhor como gatilho para usar o plano do que sinais vagos.
2. Estratégias internas"O que você pode fazer sozinho, sem depender de ninguém?"Caminhar, banho, música, exercício, cuidar de um animal. O objetivo aqui é distrair e atravessar o pico — não resolver o problema de fundo.
3. Pessoas e lugares que distraem"Com quem ou onde você se distrai, sem precisar falar do assunto?"Nesse passo o paciente não revela a ideação. Evite ambientes com álcool ou outras substâncias.
4. Quem chamar para ajudar"A quem você contaria que está em crise?"Aqui a revelação é explícita. Pese prós e contras com o paciente: quem distrai bem nem sempre é quem acolhe bem.
5. Profissionais e serviços"Quem você aceitaria procurar se nada disso bastasse?"Nomes, telefones e endereços — incluindo o que funciona fora do horário comercial. Só entra na lista quem o paciente aceita procurar.
6. Ambiente mais seguro"O que está ao seu alcance hoje que pode te machucar?"Guarda de medicações com um terceiro, retirada de meios de alta letalidade, prazo combinado. Este passo vem por último, no artigo original, e costuma envolver um familiar ou amigo.

Stanley e Brown são explícitos: o plano é feito de forma colaborativa e escrito com as palavras do próprio paciente. Uma lista de estratégias gerada pelo profissional, sem saber o que faz sentido para aquela pessoa, tende a não ser usada. E se o paciente diz que não conseguiria usar um passo, vale desenvolver outro em vez de insistir.

O plano pressupõe uma avaliação de risco feita antes, e não a substitui — tratamos desse passo anterior em como estruturar e registrar a avaliação de risco de suicídio na consulta.

O que a evidência mostra

A meta-análise de Nuij e colaboradores (British Journal of Psychiatry, 2021) reuniu 6 estudos e 3.536 participantes. O risco relativo de comportamento suicida entre quem recebeu uma intervenção do tipo plano de segurança foi de 0,570 (IC 95% 0,408-0,795; P = 0,001), com número necessário para tratar de 16. Para ideação suicida, não houve efeito significativo — e os autores concluem que outras intervenções podem ser necessárias para esse desfecho.

O estudo mais citado no pronto-socorro é o de Stanley e colaboradores (JAMA Psychiatry, 2018), com 1.640 pacientes em 9 emergências do sistema de saúde de veteranos dos EUA. Ele comparou o plano de segurança somado a contatos telefônicos de seguimento com o cuidado usual: comportamento suicida em 6 meses ocorreu em 3,03% do grupo com a intervenção contra 5,29% do grupo de comparação — 45% menos comportamentos suicidas, com razão de chances 0,56 (IC 95% 0,33-0,95; P = 0,03). A chance de comparecer a pelo menos uma consulta ambulatorial de saúde mental foi mais que o dobro (RC 2,06; IC 95% 1,57-2,71).

Duas ressalvas honestas: o estudo de 2018 é uma coorte comparativa, não um ensaio randomizado, e a intervenção incluía telefonemas de seguimento. O plano não é um amuleto — é um passo de um cuidado que continua.

Um exemplo preenchido (fictício)

O caso abaixo é inventado para ilustrar o formato. Repare que tudo está em linguagem coloquial e verificável — nada de "buscar ajuda profissional" como estratégia genérica.

PLANO DE SEGURANÇA — 10/09/2026

1. Meus sinais de alerta
   - Acordar às 4h e ficar no celular no escuro
   - Pensamento "eu só atrapalho"
   - Cancelar planos dois dias seguidos

2. O que eu faço sozinho
   - Banho quente e trocar de roupa
   - Caminhar até a praça e voltar (20 min)
   - Playlist "domingo" no volume alto

3. Pessoas/lugares que me distraem
   - Passar na casa da minha irmã (sem falar do assunto)
   - Padaria da esquina, de manhã

4. Quem eu chamo quando não passa
   - Irmã — (31) 9xxxx-xxxx
   - Rafael, do trabalho — (31) 9xxxx-xxxx

5. Profissionais e serviços
   - Dr(a). ______ — (31) 3xxx-xxxx (seg-sex)
   - CVV — 188 (24h, ligação gratuita)
   - CAPS ______ — rua ______ ; SAMU — 192

6. Deixar meu ambiente mais seguro
   - Minha irmã fica com a cartela de medicação por 30 dias
   - Entregar a chave do armário do porão para ela

Onde eu guardo este plano: foto no celular (favoritos)
e uma cópia na carteira.

Registro no prontuário e entrega da cópia

No artigo original, o documento é entregue ao paciente e uma cópia fica no prontuário. Vale conversar sobre onde ele vai guardar — carteira, geladeira, foto no celular — e considerar mais de uma cópia. Um plano perfeito que fica na gaveta do consultório não serve a ninguém.

Na evolução, registre o que aconteceu, não só que "foi feito plano de segurança": quem participou, os itens combinados no passo 6 (com prazo), o que o paciente disse sobre a chance de usar o plano, e a data da próxima revisão. Se você já acompanha desfechos com escalas, o plano entra bem na lógica do cuidado baseado em medidas: revisar a cada consulta, ajustar quando a rede social ou os fatores de risco mudarem. Os próprios autores descrevem o plano como documento vivo, revisado ao longo do acompanhamento.

Por que o "contrato de não suicídio" saiu de cena

O contrato de não suicídio é um acordo, verbal ou escrito, em que se pede que a pessoa se comprometa a não se matar. Stanley e Brown o contrastam diretamente com o plano de segurança: o contrato não diz ao paciente o que fazer quando a crise vier. E, segundo os autores, não há evidência empírica que sustente sua eficácia para prevenir comportamento suicida — nem ensaios randomizados sobre ele.

Há ainda um risco descrito na literatura que eu vejo com frequência: a pessoa deixa de contar o que sente para não "decepcionar" quem a atende, e a avaliação de risco fica pior do que era. O plano de segurança inverte isso — ele não pede promessa nenhuma, apenas organiza o que fazer.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para construir um plano de segurança?

Stanley e Brown descrevem uma intervenção breve, de aproximadamente 20 a 45 minutos para a primeira versão. Nas consultas seguintes, revisar costuma levar poucos minutos.

Plano de segurança é a mesma coisa que contrato de não suicídio?

Não. O contrato pede uma promessa de não se matar e não tem evidência empírica que sustente sua eficácia. O plano de segurança lista, em ordem, o que a pessoa faz quando a crise começa — e é essa abordagem que a meta-análise de 2021 apoia.

Psicólogo pode construir plano de segurança?

Sim. Os autores descrevem a intervenção como aplicável por profissionais de formações variadas — psicólogos, enfermeiros, médicos, assistentes sociais — após treinamento específico. O passo de restrição de meios costuma pedir articulação com a família e com quem prescreve.

E se o paciente não tiver ninguém para colocar no passo 4?

Acontece, e o artigo original reconhece isso. Nesse caso, reforce os passos 1 a 3 e 5, com serviços que funcionem fora do horário comercial, e trate a ampliação da rede como objetivo do tratamento — não como pré-requisito do plano.

Fontes consultadas

Se você está em crise: ligue 188 (CVV, gratuito, 24h) ou procure um CAPS, UPA ou o SAMU (192).

Conteúdo revisado em 7 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.

← Todos os artigos · Conheça os planos do CliniqMais

CliniqMais — prontuário eletrônico para psiquiatria e saúde mental no Brasil