A escala mais usada para triagem de TEA em adultos teve 97% de sensibilidade no estudo original — e uma especificidade que estudos posteriores mostraram ser bem menor na clínica real. Os dois lados importam.
O RAADS-R (Ritvo Autism Asperger Diagnostic Scale — Revised) é um questionário de 80 itens para auxiliar a identificação de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos com inteligência típica (Ritvo et al., 2011). A pontuação vai de 0 a 240 e o corte de triagem clássico é ≥ 65. No estudo internacional original (779 adultos, 201 com TEA), esse corte teve sensibilidade de 97% e especificidade de 100% — números que estudos independentes posteriores relativizaram, como explicamos abaixo. Existe adaptação brasileira (RAADS-R-BR, conduzida na UFRRJ com autorização dos autores originais).
| Característica | RAADS-R |
|---|---|
| Itens | 80 (64 sintomáticos + 16 normativos com pontuação invertida) |
| Pontuação | 0–240 |
| Formato de resposta | 4 opções que capturam o traço AGORA e/ou NA INFÂNCIA (o desenho longitudinal é o diferencial do instrumento) |
| Aplicação | Autorrelato; os autores recomendam aplicação em ambiente clínico (~20–40 min) |
| Corte de triagem | ≥ 65 (estudo original) |
| Domínios | Relacionamento social, circunscrição de interesses, linguagem, sensório-motor |
| Original | Ritvo et al. (2011), J Autism Dev Disord |
| Adaptação brasileira | RAADS-R-BR (UFRRJ, com autorização dos autores) |
Cada item oferece quatro respostas do tipo "verdadeiro agora e quando eu era jovem", "verdadeiro só agora", "verdadeiro só quando eu era jovem" e "nunca foi verdadeiro". Isso existe porque o diagnóstico de TEA exige que as características estejam presentes desde o período do desenvolvimento — o instrumento tenta capturar a trajetória, não só o presente. Os 16 itens normativos (comportamentos típicos) têm pontuação invertida, o que atrapalha quem tenta corrigir a escala à mão sem o gabarito.
Com corte ≥ 65, nenhum participante com TEA confirmado pontuou abaixo do limiar (sensibilidade 97%) e nenhum controle o ultrapassou (especificidade 100%) — na amostra do estudo, composta em centros especializados.
Pesquisas independentes aplicando o RAADS-R em contextos clínicos reais encontraram um cenário menos limpo: adultos sem TEA, mas com outras condições psiquiátricas (ansiedade, depressão, TDAH), frequentemente pontuam acima de 65 — há estudo recomendando cortes bem mais altos em população clínica. Na prática: escore alto em quem já tem outro diagnóstico psiquiátrico NÃO deve ser lido como "provável autismo", e sim como indicação de avaliação especializada cuidadosa.
O RAADS-R é melhor para levantar a hipótese do que para confirmá-la — e o escore alto de um paciente ansioso ou deprimido merece ceticismo clínico, não conclusão.
Pessoas com alta camuflagem social (especialmente mulheres) podem pontuar abaixo de 65 e ainda assim estar no espectro. Escala de triagem negativa não encerra investigação quando a suspeita clínica é consistente — nesse cenário, o CAT-Q ajuda a visibilizar a camuflagem que o RAADS-R não vê.
Corrigir 80 itens com 17 inversões à mão é o tipo de fricção que faz o instrumento ficar na gaveta. A calculadora pública do RAADS-R aplica o gabarito automaticamente, com a leitura honesta dos limites da triagem — e no CliniqMais o resultado entra no prontuário longitudinal do paciente. A avaliação de neurodivergência em adultos é uma das áreas de atuação do responsável técnico da plataforma (psiquiatra com prática em TDAH e autismo do adulto).
Não. Significa triagem positiva — probabilidade aumentada que justifica avaliação especializada. Em quem tem outras condições psiquiátricas, o escore alto é ainda menos específico.
Não necessariamente. Falsos negativos ocorrem, especialmente com camuflagem alta. Suspeita clínica consistente se investiga mesmo com triagem negativa.
Sim — o RAADS-R-BR, adaptação transcultural conduzida na UFRRJ com autorização dos autores originais.
Conteúdo revisado em 9 de agosto de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921, com atuação em autismo do adulto). Este texto não substitui avaliação clínica individualizada; escalas de triagem não fazem diagnóstico.
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