Índice de Gravidade de Insônia (ISI): como aplicar, pontuar e acompanhar o tratamento
Sete itens, escore de 0 a 28 e quatro faixas de gravidade. Como pontuar o ISI, quais pontos de corte a literatura sustenta, quanta mudança indica resposta ao tratamento e como registrar a série no prontuário.
O Índice de Gravidade de Insônia (ISI) é um questionário de autorrelato com 7 itens, cada um pontuado de 0 a 4, gerando um escore total de 0 a 28. As faixas de interpretação usuais, reproduzidas por Morin e colaboradores (2011), são: 0–7 ausência de insônia, 8–14 insônia subliminar, 15–21 insônia moderada e 22–28 insônia grave.
Ele serve para duas coisas: rastrear quem tem queixa clinicamente relevante e medir resposta ao tratamento ao longo do tempo. Não é instrumento diagnóstico — o diagnóstico continua sendo clínico, com anamnese e, quando indicado, investigação de outras condições do sono.
O que os 7 itens cobrem
Os itens avaliam a gravidade das dificuldades para iniciar o sono, para mantê-lo e do despertar precoce; a insatisfação com o padrão de sono atual; a interferência no funcionamento diurno; o quanto o problema é perceptível a outras pessoas; e o grau de preocupação ou angústia causado pela dificuldade de dormir.
O período de referência habitual é o último mês — vale conferir qual consta no formulário que você aplica, porque circulam versões com janelas diferentes. Cada item usa uma escala de 5 pontos, de 0 ("nenhum problema") a 4 ("problema muito grave"), e o escore é a soma simples.
Repare que três domínios não falam de horas dormidas: satisfação, impacto diurno e sofrimento. É exatamente aí que a insônia costuma doer no consultório — e é o que uma pergunta solta como "você dorme bem?" quase nunca captura.
Faixas e pontos de corte
Escore
Interpretação usual (reproduzida em Morin et al., 2011)
0–7
Ausência de insônia clinicamente significativa
8–14
Insônia subliminar (sintomas presentes, abaixo do limiar clínico)
15–21
Insônia moderada
22–28
Insônia grave
Além das faixas, o estudo de 2011 derivou pontos de corte por curva ROC em dois contextos. Na amostra comunitária, o corte 10 foi ótimo para identificar casos de insônia (86,1% de sensibilidade e 87,7% de especificidade). Na amostra clínica, a melhor taxa de classificação veio com o corte 11 (97,2% de sensibilidade e 100% de especificidade, numa amostra que comparava pacientes avaliados para tratamento de insônia com controles sem insônia — cenário mais "fácil" que o consultório geral). Ou seja: o corte muda conforme a população em que você aplica — e isso não é defeito do instrumento, é estatística de triagem.
Quanta mudança conta como melhora
Essa é a parte que transforma o ISI em ferramenta de acompanhamento. No mesmo estudo, entre pacientes tratados, uma redução média de 8,4 pontos (IC 95%: 7,1 a 9,4) correspondeu a melhora moderada segundo avaliador independente, e de 9,9 pontos (IC 95%: 8,7 a 11,0) a melhora acentuada. Pelas curvas ROC, reduções maiores que 7 pontos identificaram melhora moderada e maiores que 8 pontos, melhora acentuada.
Duas consultas seguidas com ISI 22 e 21 não são "estabilidade": são um tratamento que ainda não respondeu. O número existe para tirar essa conversa do achismo.
Na prática, aplico na avaliação inicial e repito a cada 2–4 semanas enquanto o plano está sendo ajustado — mesmo intervalo em que faz sentido revisar o diário de sono. É o mesmo raciocínio do cuidado baseado em medidas: a escala não substitui a escuta, mas impede que a impressão do dia dite a conduta.
A versão em português
A adaptação para o português do Brasil foi feita na dissertação de mestrado de Laura de Siqueira Castro (Programa de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina/Unifesp, 2011), com amostra probabilística de 1.101 adultos da cidade de São Paulo. Nesse trabalho, o ponto de corte 8 identificou casos de insônia crônica com 73% de sensibilidade e 80% de especificidade.
Um alerta honesto de fonte: nas buscas ao PubMed feitas para este texto não localizamos artigo indexado dedicado a essa validação — a referência a citar é a própria dissertação, disponível no repositório institucional da Unifesp. Sobre licença, o ISI é atribuído a Charles M. Morin e distribuído pela Mapi Research Trust (plataforma ePROVIDE); antes de usar em pesquisa financiada ou embutir num produto, consulte o distribuidor sobre as condições de uso.
ISI, PSQI ou Epworth: o que cada um responde
Instrumento
O que mede
Formato
ISI
Gravidade, impacto e sofrimento ligados à insônia; resposta ao tratamento
7 itens, 0–28; referência habitual: último mês
PSQI (Buysse et al., 1989)
Qualidade do sono em sentido amplo, no último mês
19 itens que geram 7 componentes e um escore global; > 5 indicou "mau dormidor" no estudo original
Epworth (Johns, 1991)
Sonolência diurna — propensão a cochilar em oito situações do cotidiano
Rastreio de sonolência, não de insônia
Traduzindo para a rotina: quem se queixa de "não dormir" leva ISI; quem se queixa de "dormir e não descansar" pode se beneficiar do PSQI; e quem dorme demais de dia — ou ronca — precisa de Epworth e investigação de apneia, não de hipnótico. As três têm versões brasileiras publicadas (Bertolazi e colaboradores, 2009 e 2011, para Epworth e PSQI).
Como registrar a série no prontuário
Escala isolada informa pouco; série informa muito. Registre, em cada aplicação: data, instrumento e versão, escore total, faixa correspondente e a variação em relação à aplicação anterior. Uma linha basta — por exemplo: "ISI = 18 (moderada); anterior 24 em 12/09; delta −6".
Vale também anotar o contexto: se a aplicação foi antes ou depois de mudança de dose, se houve evento de vida, se o diário de sono estava sendo preenchido. Prontuários eletrônicos com escalas psicométricas integradas guardam séries de escores num gráfico e poupam a recontagem manual — mas confira se o instrumento que você usa está no catálogo: no CliniqMais, o ISI ainda não faz parte das escalas integradas, e o escore deve ser registrado na evolução. O ponto, porém, é o hábito, não a ferramenta: quem anota em papel também consegue, desde que anote sempre.
Por fim, o escore orienta a intensidade do plano, não o seu conteúdo. Insônia crônica tem tratamento de primeira linha bem definido, comportamental, discutido no nosso texto sobre por que a TCC-I vem antes do remédio.
Perguntas frequentes
Qual ponto de corte do ISI devo usar?
Depende do cenário. No estudo de 2011, o corte 10 foi ótimo em amostra comunitária e 11 em amostra clínica; na adaptação brasileira, o corte 8 foi o adotado para insônia crônica. Escolha um, registre qual usou e mantenha o mesmo ao acompanhar o paciente.
Quantos pontos de queda indicam que o tratamento funcionou?
Reduções maiores que 7 pontos foram associadas a melhora moderada e maiores que 8 pontos a melhora acentuada, no estudo de Morin e colaboradores (2011). Números menores podem ser relevantes para o paciente, mas ficam abaixo do limiar sustentado por essa evidência.
O ISI faz diagnóstico de insônia?
Não. Ele quantifica gravidade e impacto percebidos. O diagnóstico segue clínico e exige excluir outras causas — apneia, síndrome das pernas inquietas, uso de substâncias, transtornos do humor.
Posso aplicar o ISI de forma remota, entre consultas?
Sim, é autoaplicável e curto. Combine a periodicidade com o paciente, garanta que a resposta chegue ao prontuário e revise o resultado na consulta — enviar escala sem discutir o resultado tende a desmotivar o preenchimento.
Fontes consultadas
Bastien CH, Vallières A, Morin CM. Validation of the Insomnia Severity Index as an outcome measure for insomnia research. Sleep Med. 2001;2(4):297-307. PubMed
Morin CM, Belleville G, Bélanger L, Ivers H. The Insomnia Severity Index: psychometric indicators to detect insomnia cases and evaluate treatment response. Sleep. 2011;34(5):601-608. DOI
Castro LS. Adaptação e validação do Índice de Gravidade de Insônia (IGI): caracterização populacional, valores normativos e aspectos associados. Dissertação de mestrado, Escola Paulista de Medicina/Unifesp, 2011. Repositório Unifesp
Buysse DJ, Reynolds CF 3rd, Monk TH, Berman SR, Kupfer DJ. The Pittsburgh Sleep Quality Index: a new instrument for psychiatric practice and research. Psychiatry Res. 1989;28(2):193-213. PubMed
Johns MW. A new method for measuring daytime sleepiness: the Epworth sleepiness scale. Sleep. 1991;14(6):540-545. PubMed
Bertolazi AN et al. Portuguese-language version of the Epworth sleepiness scale: validation for use in Brazil. J Bras Pneumol. 2009;35(9):877-883. PubMed
Bertolazi AN et al. Validation of the Brazilian Portuguese version of the Pittsburgh Sleep Quality Index. Sleep Med. 2011;12(1):70-75. PubMed
Mapi Research Trust / ePROVIDE — distribuição e condições de uso do ISI (consultar o distribuidor antes de uso em pesquisa financiada ou produto comercial).
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