Mini-Exame do Estado Mental (MEEM): como aplicar e os valores por escolaridade no Brasil

Os números de Brucki et al. (2003) que todo mundo chama de "ponto de corte" são medianas de referência — e os próprios autores explicaram por quê. Os valores, as adaptações brasileiras e o que registrar.

Resposta direta

No estudo brasileiro de referência, os escores medianos no MEEM por escolaridade foram: 20 para analfabetos, 25 para 1 a 4 anos de estudo, 26,5 para 5 a 8 anos, 28 para 9 a 11 anos e 29 para mais de 11 anos. São os valores de Brucki e colaboradores, publicados em 2003 nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria, a partir de 433 pessoas saudáveis sem queixa de memória.

Uma correção importante de vocabulário: esses números são medianas de referência, não pontos de corte diagnósticos. Os autores foram explícitos — "optamos por não delimitar níveis de corte, pois estes podem ser diferentes dependendo da doença de base do paciente entrevistado". A recomendação deles é outra: quem pontua abaixo da mediana da sua faixa merece uma avaliação mais detalhada.

O que o MEEM mede — e o que não mede

O Mini-Exame do Estado Mental (MEEM, ou MMSE no original de Folstein, Folstein e McHugh, de 1975) é um teste de rastreio de 30 pontos que percorre orientação temporal (5) e espacial (5), memória imediata (3), atenção e cálculo (5), evocação (3), linguagem — nomeação, repetição, comando de três etapas, leitura e escrita (8) — e praxia construtiva (1).

Não é uma bateria neuropsicológica nem um instrumento diagnóstico. Um escore baixo levanta a hipótese de comprometimento cognitivo; não diz qual, nem se é reversível. E um escore alto não afasta demência inicial em pessoa de escolaridade elevada — o teto de 30 pontos é baixo demais para detectar declínio sutil em quem partiu de um desempenho muito acima da média.

Vale também separar dois termos que se confundem em psiquiatria: o MEEM é um teste breve de cognição, enquanto o exame do estado mental é a descrição semiológica completa do paciente (aparência, humor, pensamento, sensopercepção, juízo crítico). Um não substitui o outro.

Os valores brasileiros, na íntegra

Brucki e colaboradores avaliaram 433 pessoas saudáveis — 289 avaliadas em hospital de São Paulo (em sua maioria acompanhantes de pacientes do ambulatório de neurologia) e 144 selecionadas em estudo populacional em Catanduva (SP). A idade variou de 16 a 92 anos (média 58,9) e a escolaridade, de 0 a 20 anos (mediana 4). A escolaridade foi, de longe, o fator que mais influenciou o desempenho: F(4,425) = 100,45; p < 0,0001.

EscolaridadenMédia (± DP)Mediana
Analfabetos7719,51 (± 2,84)20
1 a 4 anos21124,76 (± 2,96)25
5 a 8 anos7226,15 (± 2,35)26,5
9 a 11 anos4727,74 (± 1,81)28
Mais de 11 anos2628,27 (± 2,01)29
Amostra total43324,63 (± 3,72)25

Repare no tamanho dos grupos extremos: 26 pessoas com mais de 11 anos de estudo e 47 com 9 a 11. São subamostras pequenas, e o próprio artigo trata os valores como referência de uniformização, não como norma populacional definitiva.

Aplicar o MEEM sem anotar a escolaridade é como medir pressão sem dizer em que braço: o número existe, mas não interpreta nada.

Quando o assunto é ponto de corte, o artigo faz um apanhado honesto da literatura brasileira até então: 13 pontos para analfabetos na primeira adaptação nacional, 18 pontos para analfabetos no estudo de Caramelli e colaboradores, 20 pontos para idosos sem escolaridade no de Almeida (sensibilidade 80%, especificidade 70,9%) e 24 pontos para idosos escolarizados, "como preconizado por Folstein et al.". A dispersão desses números é exatamente o motivo pelo qual os autores preferiram não cravar um.

Como aplicar em cerca de dez minutos

O artigo brasileiro nasceu para padronizar a aplicação, e descreve as adaptações que se consolidaram por aqui: na orientação temporal, o item "estação do ano" foi trocado por semestre; na espacial, "condado" virou bairro; em atenção e cálculo, optou-se pelo uso exclusivo da subtração de setes seriada, já que a soletração invertida de "mundo" penalizava demais quem tem baixa escolaridade; e a frase de repetição passou a ser "nem aqui, nem ali, nem lá".

Não reproduzimos aqui o instrumento item a item: o MMSE é obra protegida (mais sobre isso adiante). Na prática, o que faz diferença é a disciplina de aplicação — ambiente silencioso, óculos e aparelho auditivo do paciente disponíveis, instruções lidas do mesmo jeito para todos, sem dicas no meio da tarefa, e correção de erro na série de setes sem que isso mude a pontuação já registrada.

Um cuidado clínico que vejo ser esquecido com frequência: aplicar o MEEM em plena flutuação de atenção mede o delirium, não a linha de base. Se há oscilação do nível de consciência, o teste diz pouco sobre o cérebro do paciente e muito sobre o momento. A diferenciação entre delirium, demência e depressão no idoso vem antes do teste. E, como sintomas depressivos rebaixam o desempenho, costuma valer aplicar junto uma escala de humor — a GDS-15 é a mais prática nessa faixa etária.

O que registrar no prontuário

Escore isolado envelhece mal. Três informações transformam o número em dado clínico comparável no ano seguinte:

Um registro possível: "MEEM 24/30 (escolaridade: 4 anos; mediana de referência para a faixa: 25). Perdas em evocação (1/3) e cálculo (3/5). Aplicado com óculos, sem intercorrências." Prontuários eletrônicos com escalas estruturadas guardam escore, data e itens no mesmo lugar, o que facilita a comparação longitudinal — confira sempre se a escala do seu sistema usa as medianas por escolaridade de Brucki e o sete seriado exclusivo.

Direitos autorais: MEEM e MoCA

O MMSE foi publicado em 1975 e circulou livremente por décadas. Em 2000, os autores transferiram os direitos a uma empresa criada por eles, a MiniMental LLC; em março de 2001, esta concedeu à Psychological Assessment Resources (PAR) direitos exclusivos de publicação e licenciamento em todas as mídias e idiomas, e a partir de 2010 a PAR passou a exercer esse direito exclusivo de distribuição.

A consequência prática é que não é correto dizer que o MEEM é de domínio público. A versão brasileira de Brucki e colaboradores está publicada em periódico de acesso aberto e é amplamente usada na assistência e na pesquisa no país — mas quem for reproduzir o instrumento em material próprio, especialmente com finalidade comercial, deve verificar a situação de licenciamento.

O Montreal Cognitive Assessment (MoCA) segue lógica parecida: é obra protegida por MoCA Test Inc. e, segundo o site oficial, a certificação do aplicador é obrigatória para quem interpreta tarefas isoladas ou sub-escores, e opcional para triagem baseada no escore total. É mais sensível que o MEEM para comprometimento cognitivo leve — e mais caro em tempo e em treinamento.

Perguntas frequentes

Qual é o ponto de corte do MEEM no Brasil?

Não há um único. Brucki e colaboradores optaram deliberadamente por não fixar cortes e publicaram medianas por escolaridade (20, 25, 26,5, 28 e 29). Escore abaixo da mediana da faixa indica necessidade de avaliação mais detalhada, não diagnóstico.

Serve para diagnosticar demência?

Não. É um teste de rastreio. O diagnóstico exige história clínica, avaliação funcional, exame físico e neurológico, exames complementares e, com frequência, avaliação neuropsicológica.

Por que a escolaridade pesa tanto?

Vários itens dependem de letramento e de prática escolar — cálculo, leitura, escrita e cópia da figura. No estudo brasileiro, a escolaridade foi o principal fator associado ao desempenho, com diferença estatística robusta entre os grupos.

MEEM ou MoCA?

O MEEM é mais rápido e mais difundido; o MoCA é mais sensível ao comprometimento cognitivo leve, exige certificação para alguns usos e tem restrição de direitos autorais. A escolha depende da pergunta clínica e do tempo disponível.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 30 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.

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