Prolongamento do QT e psicofármacos: quando pedir ECG e como registrar a decisão

ECG para todo mundo que começa antidepressivo? Não. O que a literatura sustenta é estratificar risco: quais fármacos entram no radar, quais fatores mudam a conta e o que escrever no prontuário.

Resposta direta

Não existe recomendação de eletrocardiograma (ECG) para todo paciente que inicia psicofármaco. A literatura de psiquiatria de interconsulta sustenta estratificar risco antes de pedir exame. ECG basal se justifica quando o fármaco é um dos poucos com prolongamento de QTc relevante — tioridazina, ziprasidona, iloperidona, haloperidol intravenoso, citalopram em dose mais alta — ou quando o paciente acumula fatores de risco: idade, sexo feminino, hipocalemia ou hipomagnesemia, bradicardia, cardiopatia, outros fármacos que prolongam o QT.

O QTc é o intervalo QT corrigido para a frequência cardíaca. Considera-se prolongado acima de 460 ms em homens e 470 ms em mulheres; acima de 500 ms o risco de evento cardíaco adverso sobe de forma consistente. E a decisão precisa estar escrita no prontuário.

O que o QTc mede e a partir de quando ele preocupa

O intervalo QT representa a despolarização e a repolarização ventricular. Como encurta quando o coração acelera, corrige-se pela frequência — daí o QTc. A maioria dos aparelhos usa a fórmula de Bazett, imprecisa longe de 60 bpm; vale conferir manualmente, em V2 ou V3.

O guia de QTc da Academy of Consultation-Liaison Psychiatry gradua o risco de forma útil: comparado a um QTc de 400 ms, um QTc acima de 500 ms associa-se a cerca de 1,66 vez mais eventos cardíacos adversos, e acima de 550 ms, 2,14 vezes. Não é um interruptor que liga em 500 — é um gradiente. Mas 500 ms é o número que muda conduta.

O desfecho temido é a torsades de pointes (taquicardia ventricular polimórfica), muitas vezes assintomática, mas capaz de causar síncope e morte súbita.

Quais psicofármacos realmente entram no radar

A revisão de Beach e colaboradores (Psychosomatics, 2018) e o guia derivado dela desfazem alguns mitos. A tabela resume o que essas fontes descrevem — síntese de revisão, não norma.

Fármaco ou classeO que a revisão descreveLeitura prática
CitalopramProlongamento dose-dependente, com alerta formal na bula do FDA. Em estudo dedicado com 119 voluntários, diferença média vs. placebo de 8,5 ms com 20 mg e 18,5 ms com 60 mgRespeitar o teto de dose
Escitalopram e demais ISRSEscitalopram é dose-dependente em grau menor, não considerado clinicamente significativo; os ISRS são tidos como seguros em cardiopatas, e a sertralina é a mais estudada nesse cenárioRazoáveis com risco cardíaco
TricíclicosProlongam sobretudo o QRS, por bloqueio de canal de sódio; risco de arritmia principalmente em superdose ou cardiopatia préviaAtenção à dose em casa
Ziprasidona e iloperidonaMaior prolongamento entre os antipsicóticos de segunda geraçãoJustificam ECG mesmo sem fatores de risco
Fenotiazinas de baixa potência (clorpromazina, tioridazina) e pimozidaClasse historicamente mais associada a prolongamento e torsadesPimozida: contraindicada com citalopram
HaloperidolPor via oral prolonga menos que a maioria dos antipsicóticos em estudos comparativos; a via intravenosa tem alerta do FDA, baseado em 70 relatos — quase todos com outros fatores de riscoO foco é a via IV
QuetiapinaAlerta reforçado quanto a prolongamento do QTEntra no cômputo de risco
Aripiprazol e lurasidonaEntre os menores prolongamentos descritosAlternativas quando o QTc pesa
LítioAcima de 1,2 mmol/L pode prolongar o QTc; a revisão não registra casos de torsadesLitemia em faixa
Valproato, lamotrigina, carbamazepina, oxcarbazepina, estimulantes, benzodiazepínicosNão associados a prolongamento clinicamente relevanteFora do alvo

Metadona aparece na lista de fármacos não psiquiátricos associados ao prolongamento, ao lado de antiarrítmicos das classes I e III, macrolídeos, quinolonas, azólicos e antimaláricos. Boa parte do risco vem da soma: dois agentes que prolongam o QT, ou um deles com um inibidor de CYP. Para conferir um fármaco, o CredibleMeds, da AZCERT, classifica medicamentos em risco conhecido, possível e condicional de torsades.

O maior fator de risco raramente é o psicofármaco isolado. É o psicofármaco somado à idade, à hipocalemia do diurético e ao antibiótico que entrou na semana passada.

O caso do citalopram, com os números da bula

A bula norte-americana do citalopram traz limites explícitos: a dose máxima recomendada é de 40 mg/dia e cai para 20 mg/dia em pacientes com mais de 60 anos, com insuficiência hepática e em metabolizadores lentos de CYP2C19. O mesmo teto vale para quem usa um inibidor de CYP2C19 — a cimetidina é citada nominalmente. A bula orienta suspender o citalopram diante de QTc persistentemente acima de 500 ms e evitar o fármaco em QT longo congênito, bradicardia, hipocalemia ou hipomagnesemia, infarto recente e insuficiência cardíaca descompensada.

Há um contraponto que a própria revisão faz e que vejo pouco discutido no consultório: reduzir reflexamente a dose em quem estava bem pode piorar o quadro psiquiátrico e aumentar o uso de sedativos, sem ganho cardíaco demonstrado. A decisão é de balanço, não de automatismo.

Quando pedir ECG basal e de controle

As recomendações abaixo seguem o guia da ACLP e são orientação de revisão especializada, não norma:

Antes do traçado, corrija o corrigível: potássio, magnésio e a lista completa de medicamentos, incluindo os comprados por conta. Reunimos o que a evidência apoia em exames laboratoriais na primeira consulta psiquiátrica. Com antipsicóticos, o monitoramento cardiometabólico anda junto — tema de antipsicóticos e síndrome metabólica.

Como registrar a decisão

O Código de Ética Médica pede que o prontuário contenha "os dados clínicos necessários para a boa condução do caso" (art. 87, §1º) e veda deixar de obter consentimento do paciente após esclarecê-lo (art. 22). Aplicado ao QT, isso significa registrar quatro coisas na evolução: os fatores de risco levantados, a conduta escolhida (pedir ECG, não pedir, corrigir eletrólito antes), o que foi conversado com o paciente e, quando houver traçado, o QTc, a fórmula e a data.

Registrar o número importa mais do que parece: sem o basal, o QTc de controle não diz quase nada. Se você escreve em texto livre, um bloco fixo resolve — sugestões em como escrever a evolução do paciente. A mesma lógica de registro seriado vale para a litemia, como no checklist de monitorização do lítio.

Perguntas frequentes

Preciso pedir ECG para todo paciente que vai começar antidepressivo?

Não. As revisões especializadas não indicam ECG basal para toda prescrição de antidepressivo. O exame se justifica com citalopram, com fatores de risco relevantes ou quando há outros medicamentos que prolongam o QT em uso.

Qual valor de QTc me obriga a mudar de conduta?

QTc acima de 460 ms em homens e 470 ms em mulheres já é prolongado. A bula do citalopram orienta suspender o fármaco diante de QTc persistentemente acima de 500 ms — patamar em que as revisões recomendam reavaliar a prescrição e discutir com a cardiologia.

Posso manter citalopram acima de 40 mg em quem responde bem?

A bula não recomenda doses acima de 40 mg/dia. A revisão especializada admite que, em casos selecionados, doses maiores possam ser defendidas com critério e monitorização eletrocardiográfica — decisão individual, fora de bula, que precisa ser pactuada com o paciente e registrada.

Estimulantes para TDAH prolongam o QT?

Segundo a revisão citada, estimulantes e benzodiazepínicos não são associados a prolongamento do QT. Isso não dispensa a avaliação cardiovascular antes de iniciar estimulante — apenas afasta o QTc como preocupação central.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 7 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.

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