Escriba de IA na consulta: como conduzir o atendimento com o paciente sabendo

Avisar que a consulta está sendo transcrita muda a sala. Duas frases que funcionam, quando pausar a gravação, o que fazer se o paciente recusa e o que a CFM 2.454 exige antes de você assinar.

Por , psiquiatra (CRM-MG 58241 · RQE 37921). Política editorial: como escrevemos e revisamos.

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Resposta direta

A Resolução CFM nº 2.454/2026 não deixa margem: o art. 11 determina que "qualquer utilização de IA deverá ser comunicada e explicada aos pacientes", e o art. 5º, § 1º garante ao paciente o direito de ser informado "de forma clara e acessível". Se ele recusar, o § 3º do mesmo artigo manda respeitar essa autonomia — inclusive a recusa informada.

Traduzindo para a sala: avisar leva dez segundos, e o modo de avisar define o resto da consulta. A pergunta prática não é se contar, e sim como contar sem transformar a abertura da consulta num termo de responsabilidade lido em voz alta.

Duas frases que funcionam

O aviso precisa dizer três coisas: que existe uma ferramenta, para que ela serve e que você revisa antes de assinar. Nada além disso na primeira vez. Uma redação que uso e que raramente gera dúvida:

"Uso um programa que transcreve a nossa conversa para me
ajudar a escrever a evolução — assim eu olho mais para você
e menos para a tela. Tudo o que ele escrever eu reviso e
corrijo antes de assinar, e se você preferir que eu não
use, é só dizer que eu desligo."

Não peça permissão com voz de dúvida ("tudo bem se…?" com hesitação) nem despache o assunto como formalidade. As duas coisas produzem o mesmo resultado indesejado: o paciente entende que aquilo é maior do que é, ou entende que não vale a pena perguntar.

Na consulta seguinte, o aviso encolhe para uma frase ("estou com a transcrição ligada, como da outra vez"). Em saúde mental, onde o vínculo é o instrumento, transparência repetida com naturalidade vale mais que um consentimento assinado uma única vez — embora o termo escrito continue sendo boa prática, e tenhamos um modelo comentado de termo de consentimento para uso de IA.

Quando pausar

Nem tudo o que é dito na consulta precisa passar por uma ferramenta. Vejo três situações em que pausar é a conduta melhor:

Pausar deve ser um gesto de dois segundos, anunciado ("vou pausar aqui") e retomado ("voltei a gravar"). Se a ferramenta que você usa não permite pausar com facilidade, isso é um critério de escolha — não um detalhe.

A gravação existe para você olhar mais para o paciente. Se ela passa a governar o que pode ou não ser dito na sala, ela inverteu o próprio propósito.

Se o paciente recusa

Recusa não é conflito. Desligue, diga que está desligado e siga a consulta como sempre foi feita — a nota volta a ser escrita por você, no fim do atendimento. O art. 5º, caput da resolução pede que o uso da IA não comprometa "a relação médico-paciente, a escuta qualificada, a empatia, a confidencialidade e o respeito à dignidade da pessoa humana"; insistir depois de um "prefiro que não" comprometeria exatamente isso.

Vale registrar a recusa na evolução, em uma linha. Não é burocracia: é o que explica, meses depois, por que aquele atendimento tem uma nota com outra textura. E evita que alguém da equipe ligue a ferramenta na consulta seguinte por hábito.

Revisar antes de assinar não é opcional

O art. 7º é direto: o médico "permanece integralmente responsável pelos atos médicos por ele praticados mediante a utilização de modelos, sistemas e aplicações de IA". O art. 4º, I e II acrescentam o dever de usar a IA exclusivamente como apoio e de exercer julgamento crítico sobre o que ela produz. E o art. 5º, § 2º veda delegar à IA a comunicação de diagnósticos, prognósticos ou decisões terapêuticas sem mediação humana.

Na prática, a revisão tem três alvos: o que a ferramenta inventou (nome de medicação, dose, data), o que ela atribuiu à pessoa errada quando havia acompanhante na sala, e o que ela deixou passar — o silêncio longo, o choro, a hesitação, que não viram texto e são metade do exame do estado mental. Detalhamos o funcionamento e os riscos em IA que transcreve a consulta.

Sobre o registro: o art. 4º, V determina registrar no prontuário o uso de sistemas de IA como apoio à decisão médica. A resolução não define campos, formato nem metadados para esse registro — quem afirmar o contrário está interpretando, não citando. Uma linha objetiva ao fim da evolução cumpre o dever sem inventar exigência.

O que a evidência mostra (e em que contexto)

Dois trabalhos ajudam a calibrar expectativa. Ambos são de sistemas de saúde dos Estados Unidos e não avaliam nenhum produto brasileiro — leia como contexto, não como promessa.

Tierney e colaboradores (NEJM Catalyst, 2024) relataram a implantação de escribas de IA na Kaiser Permanente: 3.442 médicos usaram a ferramenta em dez semanas, com 303.266 encontros assistidos, e 968 médicos a usaram em cem ou mais encontros cada. Olson e colaboradores (JAMA Network Open, 2025) conduziram um estudo de melhoria de qualidade em seis sistemas de saúde, com 263 clínicos analisados: após trinta dias de uso, a proporção com burnout caiu de 51,9% para 38,8% (OR 0,26; IC95% 0,13–0,54), a carga cognitiva relacionada à nota melhorou 2,64 pontos numa escala de dez, e o tempo de documentação fora do expediente caiu em média 0,90 hora (estudo de melhoria de qualidade antes-e-depois, sem grupo controle, com 60% de resposta aos dois questionários e coautores ligados ao fabricante da ferramenta — os números indicam associação, não efeito comprovado).

Um detalhe de método que os resumos costumam omitir: todos os desfechos são autorrelatados pelos clínicos, com participação voluntária — inclusive a percepção de que o paciente entenderia o plano de cuidado ao ler a nota, que melhorou levemente (de 7,3 para 7,8 numa escala de dez). Não é compreensão medida no paciente, e a revisão da nota antes de assinar continua sendo sua.

No CliniqMais, a transcrição gera um rascunho que só é finalizado depois que o profissional confirma a revisão; o uso da IA fica nos metadados da evolução e na trilha de auditoria — a linha descritiva no texto continua sendo sua. Quem quiser entender o fluxo de ponta a ponta encontra a descrição em prontuário por voz.

Perguntas frequentes

Preciso avisar o paciente sempre, ou só na primeira consulta?

O art. 11 da CFM 2.454/2026 fala em comunicar e explicar qualquer utilização de IA. Na prática, um aviso completo na primeira vez e uma menção curta nas seguintes cumprem a comunicação e mantêm o paciente ciente — sem transformar o início de cada consulta num ritual.

Preciso de termo de consentimento por escrito?

A resolução exige informar e respeitar a recusa; ela não determina forma escrita para esse aviso. Ainda assim, um termo por escrito documenta a informação prestada e ajuda em auditoria — é boa prática, não exigência textual.

O que fazer com o áudio depois?

Trate o áudio como dado sensível. O art. 6º, § 1º pede que o compartilhamento seja adequado às finalidades informadas e ocorra apenas quando estritamente necessário; o § 3º veda sistemas sem padrões mínimos de segurança. Pergunte ao fornecedor por quanto tempo o áudio é retido e onde fica armazenado.

Posso usar a transcrição num atendimento com acompanhante?

Pode, com dois cuidados: avisar as duas pessoas e revisar com atenção redobrada a atribuição de falas. Dados de terceiros identificáveis que apareçam na conversa não precisam ir para a nota — o que vai é o que é clinicamente necessário, escrito por você.

Fontes consultadas

Conteúdo revisado em 30 de setembro de 2026 pelo responsável técnico (psiquiatra, CRM-MG 58241 · RQE 37921). Esta página é mantida pelo CliniqMais — conflito de interesse declarado. As normas e evidências citadas podem ser atualizadas — consulte sempre as fontes oficiais. Este texto não substitui avaliação clínica individualizada nem assessoria jurídica.

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