Burnout na residência médica: o que a literatura mostra e o que os programas podem fazer
Revisões sistemáticas estimam burnout em 35% a 51% dos residentes. O que pesa mais é o trabalho, não o indivíduo. Os números, o que a Lei 6.932/1981 garante e o que os programas podem mudar.
Burnout em residentes é frequente em todas as grandes revisões sistemáticas, mas o número depende de como cada estudo mede: as prevalências agrupadas vão de 35,7% a 51%. Os fatores mais associados vêm do trabalho (demanda excessiva, ambiente ruim, conflito entre trabalho e vida pessoal), e não de idade ou ano de formação. Por isso a resposta mais consistente é estrutural: respeitar o teto de horas e a folga previstos na Lei 6.932/1981, garantir supervisão e combater o assédio.
O que as revisões sistemáticas encontraram
Burnout é uma síndrome ligada ao trabalho, descrita em três dimensões: exaustão emocional, despersonalização (distanciamento e cinismo com as pessoas atendidas) e baixa realização profissional. Muitos estudos usam o Maslach Burnout Inventory (MBI) ou versões curtas dele.
Três revisões dão a dimensão do problema:
Revisão
Amostra
Prevalência agrupada
Rodrigues et al., PLoS One, 2018
26 estudos, 4.664 residentes
35,7%
Naji et al., CMAJ Open, 2021
114 estudos, 31.210 residentes de 47 países
47,3%
Low et al., Int J Environ Res Public Health, 2019
22.778 residentes
51,0%
A revisão de Rodrigues e colegas foi feita por pesquisadores da UFRN. Ela separou as especialidades em três grupos: cirurgia geral, anestesiologia, ginecologia e obstetrícia e ortopedia (40,8%); clínica médica, cirurgia plástica e pediatria (30,0%); otorrinolaringologia e neurologia (15,4%).
A revisão de Naji e colegas acrescenta um dado incômodo: a prevalência ficou estável ao longo de duas décadas de estudos.
Por que os números variam tanto
Os estudos usam pontos de corte e definições diferentes, em países com regimes de residência muito distintos. Na meta-análise de Low e colegas, a heterogeneidade foi de 97% (I², medida de quanto os estudos divergem entre si). A Europa teve a menor prevalência (27,7%), contra 51,6% na América do Norte.
As revisões também discordam sobre especialidade. Rodrigues e Low encontraram diferenças entre áreas; Naji encontrou taxas semelhantes entre residentes clínicos e cirúrgicos. O mais prudente é ler esses números como ordem de grandeza: algo entre um terço e metade dos residentes, não um percentual exato.
O que aparece associado ao burnout do residente
A meta-análise de Zhou e colegas (48 estudos, 36.266 médicos em formação) comparou fatores de trabalho e fatores pessoais. A associação mais forte foi com a demanda de trabalho; entre os fatores de trabalho, apareceram:
demandas de trabalho: chance quase 3 vezes maior de burnout ou estresse (OR 2,84);
preocupação com o cuidado ao paciente (OR 2,35);
ambiente de trabalho ruim (OR 2,06);
equilíbrio ruim entre trabalho e vida pessoal (OR 1,93).
Fatores pessoais também se associaram ao burnout, como saúde física ou mental percebida como ruim (OR 2,41), baixa autoeficácia (OR 2,13), preocupação financeira e sexo feminino. Idade mais jovem e ano de residência não tiveram associação significativa. Os autores concluem que os achados apoiam intervenções organizacionais.
E no Brasil?
Um inquérito online com 1.419 residentes de todo o país (de Mélo Silva Júnior e colegas, 2022) encontrou rastreio positivo para burnout em 37,0%. Rastreio não é diagnóstico, mas os fatores associados chamam atenção: jornada mais longa, ausência de folga, atendimento sem supervisão, assédio psicológico e sonolência durante o dia.
Um estudo longitudinal brasileiro com residentes de primeiro ano (Tokeshi e colegas, 2025) encontrou relato de assédio moral acima de 90%. A conclusão dos autores é direta: são necessárias mudanças institucionais.
Quando os fatores mais fortes são carga de trabalho, ambiente e supervisão, tratar o burnout do residente só como fragilidade individual é olhar para uma parte pequena do problema.
O que a Lei 6.932/1981 garante ao residente
A lei da residência médica já desenha um mínimo estrutural:
Teto de horas (art. 5º): "máximo de 60 (sessenta) horas semanais, nelas incluídas um máximo de 24 (vinte e quatro) horas de plantão".
Descanso (art. 5º, §1º): "um dia de folga semanal e a 30 (trinta) dias consecutivos de repouso, por ano de atividade".
Condições no plantão (art. 4º, §5º): a instituição oferece condições adequadas para repouso e higiene pessoal durante os plantões, alimentação e moradia, esta conforme regulamento.
Afastamento por saúde (art. 4º, §4º): o tempo de residência é prorrogado por prazo equivalente ao afastamento por motivo de saúde.
O último ponto importa para quem adia o cuidado por medo de "perder" a residência: a lei prevê a reposição do período afastado. A relação entre horas seguidas, sono e erro está detalhada em plantão, privação de sono e desempenho.
O que os programas podem fazer
A revisão de West e colegas (Lancet, 2016) reuniu 15 ensaios randomizados e 37 coortes. Nos estudos com essa medida, a proporção de médicos com burnout caiu de 54% para 44% após as intervenções. Tanto estratégias individuais quanto estruturais ou organizacionais tiveram efeito.
Juntando essas revisões com os fatores brasileiros, uma lista prática para coordenações de programa (interpretação operacional, não norma):
Medir e cumprir a carga horária: registrar horas reais, plantões e folgas, e corrigir escalas que passam do teto legal.
Supervisão de verdade: o residente não deve assumir atendimento sem preceptor disponível.
Canal seguro contra assédio: com sigilo para quem relata e consequência para quem pratica.
Repouso no plantão: lugar adequado para descansar, como a lei já exige.
Acesso confidencial a cuidado em saúde mental: fora da cadeia de avaliação do residente.
Acompanhar o clima: pesquisa anônima periódica com instrumento validado, com devolutiva ao grupo.
Para o residente, o ponto de partida é conhecer esses direitos, levar problemas de escala à coordenação do programa e procurar cuidado em saúde quando o cansaço deixa de passar com o descanso. Pedir ajuda é parte do exercício responsável da profissão.
Perguntas frequentes
Quantos residentes têm burnout?
As revisões sistemáticas estimam entre 35,7% e 51%, conforme o instrumento e a definição usados. A ordem de grandeza é de um terço a metade dos residentes.
Qual é a carga horária máxima da residência médica?
Pela Lei 6.932/1981, art. 5º, 60 horas semanais, incluídas no máximo 24 horas de plantão, com um dia de folga por semana e 30 dias consecutivos de repouso por ano.
Se eu me afastar por saúde, perco a residência?
A lei prevê que o tempo de residência seja prorrogado por prazo equivalente ao afastamento por motivo de saúde (art. 4º, §4º). Detalhes do afastamento dependem das regras do programa.
Burnout no residente é falta de resiliência?
Os dados não sustentam reduzir a questão a isso. A associação mais forte na meta-análise de Zhou e colegas foi com a demanda de trabalho; ambiente ruim e, no estudo brasileiro, falta de supervisão também aparecem. Idade e ano de formação não tiveram associação significativa.
Fontes consultadas
Rodrigues H, Cobucci R, Oliveira A, et al. Burnout syndrome among medical residents: a systematic review and meta-analysis. PLoS One. 2018;13(11):e0206840. PubMed
Low ZX, Yeo KA, Sharma VK, et al. Prevalence of burnout in medical and surgical residents: a meta-analysis. Int J Environ Res Public Health. 2019;16(9):1479. PubMed
Naji L, Singh B, Shah A, et al. Global prevalence of burnout among postgraduate medical trainees: a systematic review and meta-regression. CMAJ Open. 2021;9(1):E189-E200. PubMed
Zhou AY, Panagioti M, Esmail A, et al. Factors associated with burnout and stress in trainee physicians: a systematic review and meta-analysis. JAMA Netw Open. 2020;3(8):e2013761. PubMed
de Mélo Silva Júnior ML, Valença MM, Rocha-Filho PAS. Individual and residency program factors related to depression, anxiety and burnout in physician residents: a Brazilian survey. BMC Psychiatry. 2022;22(1):272. PubMed
Tokeshi AB, Dos Santos RA, Nogueira-Martins LA, et al. Moral harassment and mental health in medical residents: a longitudinal study. Braz J Psychiatry. 2025;47:e20243579. PubMed
West CP, Dyrbye LN, Erwin PJ, Shanafelt TD. Interventions to prevent and reduce physician burnout: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2016;388(10057):2272-2281. PubMed
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